domingo, 22 de maio de 2011

Artigo do Jornalista Mario Mazzei Guimarães...

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publicado na Revista DBO - edição 352 - fevereiro/2010




Profissional consagrado, Mário Mazzei é testemunha de uma era
CECÍLIA PRADA
Não é todo dia que se encontra alguém que tenha vivido 20% da história da nossa cidade e que, ao completar 90 anos de idade, exatamente no dia 25 de janeiro deste ano, data em que comemoramos os 450 anos da fundação de São Paulo, possa dar um lúcido testemunho das lutas, sonhos, decepções e ideais que agitaram todo o século 20. Para várias gerações de jornalistas, Mário Mazzei Guimarães impôs-se como personalidade inesquecível e profissional de alto gabarito, capaz de destacada atuação como repórter, redator, editorialista e cronista de assuntos políticos, econômicos e rurais. Como redator-chefe e depois editor-chefe da "Folha da Manhã" no período de 1952 a 1958, modernizou técnicas jornalísticas, reformulou "cadernos" e revitalizou a reportagem – criando grandes campanhas de interesse social. Trabalhou nos mais importantes veículos de comunicação do país e fundou e dirigiu um jornal próprio, o "Correio Agropecuário".Conquistou os maiores prêmios jornalísticos, como o Esso de Reportagem em 1959, e muitas honrarias, medalhas e condecorações – inclusive a Ordem de Rio Branco, do Itamaraty, no grau de comendador. Em 1990 recebeu o Prêmio Colegas de Profissão e foi declarado Mestre Maior do Jornalismo. Em julho do ano passado, lançou o livro "Memórias da Roça – Gente Que Fez História", um pequeno dicionário de personalidades relacionadas com a agropecuária. Atualmente trabalha no segundo volume da obra.Razões de sobra para a revista Problemas Brasileiros registrar em entrevista o precioso testemunho desse homem cuja geração participou ativamente das lutas políticas e sociais que conseguiram fazer o país emergir da sociedade agrária para a era industrial.

Problemas Brasileiros – Como se deu sua opção pelo setor da economia
agropecuária?
Mário Mazzei Guimarães– Sou "um menino da roça". Filho e neto, tanto pelo lado paterno como pelo materno, de agricultores. Meu avô paterno, o baiano Urbino de Oliveira Guimarães, foi um verdadeiro patriarca bíblico – teve com minha avó Idalina 20 filhos, dos quais foram criados 16. Em junho de 1899 ele empreendeu com a família e grande comitiva uma viagem que mais deveria parecer um êxodo, percorrendo 1.422 quilômetros em 66 dias – de Lagoa do Timóteo (BA) a Casa Branca (SP). Eu nasci em Bebedouro (SP), em 25 de janeiro de 1914, mas passei minha primeira infância na Fazenda Santa Otacília, em Pitangueiras (SP), onde a família se estabelecera.
PB – Como foram seus estudos e quando se iniciou no jornalismo?
Mazzei – Fui alfabetizado na escola da fazenda e depois estudei em Bebedouro e em Jaboticabal (SP). Já redigia artigos para o jornal do grêmio do colégio, aos 16 anos. E sofri pela primeira vez a censura, pois um inspetor escolar não gostou do que eu escrevia sobre a Revolução de 30. Eu era favorável a Getúlio naquele tempo. Depois, mudei de opinião sobre ele e fui combatente em 1932. Somente em 1936, depois de me formar em direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, foi que optei pelo jornalismo.
PB – Qual foi sua participação na Revolução Constitucionalista de 1932?
Mazzei
– Eu tinha 18 anos e cursava o segundo ano de direito. Acabara de passar as férias em Bebedouro e cheguei à capital ao anoitecer do dia 8 de julho, com um primo que ia para o Rio de Janeiro. Dormimos na casa de um tio, perto da Praça Princesa Isabel. De manhãzinha, fomos acordados pelo tio, muito bem-humorado: "Levantem-se, estourou a revolução e vocês vão ser chamados para a guerra". Estremunhados, não entendíamos bem as coisas, mas murmurei: "E eu que não acreditava nisso..."
PB – Já se planejava então há muito a revolução?
Mazzei – Sim, pude ver isso no escritório de advocacia do professor Jorge Americano, onde eu trabalhava como estagiário. O lugar era um ninho de conspiração. Havia gente de todos os naipes políticos, de conservadores a radicais, separatistas. Quando a revolução estourou, fiquei indeciso, não sabia o que fazer. Nas ruas sentia-se o entusiasmo da população, soprado pelo rádio e pelos jornais. Procurei me alistar na faculdade, mas o batalhão já estava completo. Resolvi voltar para Bebedouro e pedir a opinião da família.

PB – Há quem diga que a mocidade paulista foi enganada.
Mazzei – É o que sempre acontece nas guerras. A mocidade é que vai para o front... Em Bebedouro, as famílias se dividiam entre o entusiasmo pela causa e o medo de perder os filhos. Meu pai considerava-se paulista de adoção e era fanático. Empolguei-me com ele e resolvi alistar-me. Na partida do batalhão, houve passeata, discurso de incentivo. O orador afirmava que depois de nós também iria – parece que não foi. As moças compareceram em penca no dia do embarque, umas chorando pelos namorados, outras sorridentes, eufóricas.
PB – Qual o preparo daqueles jovens para a ação armada?
Mazzei
– Fomos incorporados a um batalhão de Campinas e tivemos uns dez dias de instrução militar, mais ou menos o que já havíamos aprendido no tiro-de-guerra. Ainda no mês de julho, seguimos para o front da Alta Mogiana, fronteiriço a Poços de Caldas (MG). Ficamos entrincheirados cerca de um mês no morro da Lagoinha, no distrito de São Roque da Fartura (SP), castigados pelo frio, comendo um jabá de arrepiar o estômago, dormindo em buracos, como bichos-do-mato.
PB – Chegou a entrar em ação?
Mazzei
– Essa posição, no morro da Lagoinha, não rendia muito perigo. Recebíamos visitas, escrevíamos para as namoradas, tomávamos banhos de cachoeira, chupávamos jaboticabas, líamos. Mas chegamos a "cheirar batalha" umas três vezes. Na primeira, fomos destacados para ocupar uma área que diziam ter sido invadida por "mineiros". Foi uma afanosa operação noturna em que tive de desincumbir-me como estafeta, levando e pedindo instruções para o quartel-general. Outra vez fomos beirando um córrego, protegidos pela mata, até as cercanias de Poços de Caldas – que já era território "inimigo". Estávamos desorientados e confusos, pensando em tiroteios e na morte talvez próxima. Passamos por várias trincheiras abandonadas, até que deu um claro na cabeça do tenente e ele ordenou nosso retorno. Mas tivemos um batismo, não digo de fogo, mas de tiro, e bem barulhento, num cair de noite – tiros ribombando a distância e a que respondemos com dificuldade, com os fuzis engasgando pela longa inoperância e uns soldados da Força Pública nos incentivando com descargas de metralhadora. Mas certo dia tivemos a impressão de que ia começar a guerra de verdade.
PB – Sempre na mesma região?
Mazzei – Sim. A cidadezinha de Águas da Prata (SP) fora atacada e precisava de reforços. Empreendemos de madrugada uma marcha em rota semivirgem, paralela à ferrovia da Mogiana e à linha de fogo do inimigo, que nos rodeava pelos dois lados. À noite fomos nos aproximando de Prata, sob uma chuva forte. O tiroteio era cerrado, e tínhamos de andar agachados dentro de um cafezal muito lamacento. Eu fui como patrulheiro, com os guias, dar uma batida pelos arredores. O tenente achou que devíamos sair do cafezal. Achamos abrigo e na manhã seguinte conseguimos encontrar tropas paulistas, acampadas perto da cidade – onde fomos recebidos festivamente, homenageados até pela Miss Prata. Mas a distração durou pouco tempo. Dias depois tivemos uma experiência danada. Fomos escalados para abrir e ocupar uma trincheira num dos claros do morro por onde o inimigo procurava penetrar. Cavoucamos calados, quase deitados, e o fogo sibilando de lá, em pleno dia. Tivemos então as primeiras baixas, feridos, e a morte do capitão da nossa companhia, baleado. À tardinha desse dia terrível fui designado, com outro soldado, para ir buscar mais munição em Prata. Fomos e retornamos nos arrastando, praticamente nadando sobre a terra, sob fogo cerrado, na volta sobrecarregados com o peso de fuzis e cartucheiras. Chegamos completamente esfolados, mas nosso pelotão já havia sido retirado. Acabamos nós dois esperando em vão na trincheira, e o fogo comendo. Éramos obrigados a responder, aparentando ser mais numerosos. O reforço não chegava, e o meu companheiro teve de ir procurar auxílio. Foi então que me lembrei de um filme visto em 1930, Beau Geste – os árabes atacavam uma fortaleza francesa e o comandante arrumava nas ameias os companheiros mortos, em posição de tiro, fazendo os sobreviventes correrem em torno, atirando, para dar a impressão de que era um grande pelotão. Resolvi imitá-lo, percorrendo os 50 metros de valeta em que me encontrava. Municiava os fuzis encostados e puxava os gatilhos, em vários pontos da trincheira. Pareceu-me que os de lá caíram no conto: a fuzilaria redobrou, mesmo porque meu pelotão, retirado, também atirava com uma bombarda sobre os invasores. Fiquei guerreando escoteiro assim até as 6 horas da manhã, quando o pelotão chegou em peso, para fazer o revezamento. Fui abraçado e dispensado pelo tenente. Desci para a cidade de Prata, fui até a estação e no espelho do banheiro vi refletida uma cara negra, que era a minha, pois a pólvora grudara no rosto, nos braços e em minhas roupas.
PB – Ganhou fama de herói?
Mazzei
– Sem dúvida. Mas também deu para sentir como é instável a glória... Um militar importante do "inimigo", irmão do dono do exército, que era o general Góis Monteiro, fora morto na batalha. O batalhão deles pediu reforço e fomos obrigados a recuar. Levei trotes dos companheiros, que me acusavam de ter provocado, com a minha ação, o furor dos adversários. O certo é que a hora do fracasso se aproximava. Durante a retirada, os boatos mais desencontrados corriam: que a revolução acabara, que tropas inimigas vinham chegando, massacradoras, que Juarez Távora, comandante geral do outro lado, andava aparecendo em pessoa em muitos lugares, fazendo sondagens. Uma prima de meu pai, residente em Casa Branca, me mandou um alerta: "Cuidado, você é alto, moreno, há gente por aqui achando que é Juarez disfarçado, espionando, assombrando..." Mas as tropas paulistas foram reorganizadas, fui servir sob as ordens do major Romão Gomes e participei ainda de ações armadas, em vários pontos do estado.
PB – Chegou a ver a morte de perto?
Mazzei – Sim, tive experiências de horror, tão jovem, com 18 anos. Mas fui poupado pelo destino justamente quando meu fim parecia se acercar. Estávamos aquartelados em Campinas quando recebemos ordem de marchar para o front próximo, que estalava de tiros nossos ouvidos. Antes que a gente se erguesse, chegaram serviços de socorro trazendo feridos com pernas cambaias, braços cortados, caras rachadas, peitos sangrentos, um despropósito nas macas. No último chamado, quando já estávamos alinhados para a marcha, veio aviso para retrocedermos e fomos recolhidos por um caminhão. Diziam: "A revolução acabou". Ainda tivemos algumas peripécias finais, o caminhão em que seguíamos despencou de um barranco de 8 metros. Gente e equipamento se revirando, os capacetes espalhando-se, granadas escapando das mãos e rolando em mistura com cigarros acesos, isqueiros e caixas de fósforo... mas não houve estouros. Tratamos de voltar logo para São Paulo.
PB – Qual o saldo da Revolução de 32?
Mazzei
– Para mim, um saldo positivo: dubitativo na minha ida, eu voltava para a capital me sentindo mais paulista do que nunca. Minha tia ficou horrorizada com meu aspecto, barbudo, imundo. Não me deixou sair de farda, era perigoso. Participei de uma reunião na Praça da República, uma possível reorganização da resistência, mas que deu em nada. Cada soldado procurava esconder a farda e o armamento. Distribuí meus pertences de guerra pelos sótãos dos parentes e retomei minha vida de trabalho e estudo.
PB – Qual seu envolvimento com as idéias políticas do seu tempo?
Mazzei – Minha geração foi muito integralista. Sentíamos muito as injustiças sociais, mas não fomos comunistas, porque o Partido Comunista não era ainda muito importante. Pertenci a uma facção integralista antifascista que incluía Ernani Silva Bruno, Luís Saia, Roland Corbisier, Constantino Ianni. Ofereceram-me um emprego de editorialista em um jornal carioca, "O Povo", mas acabei me desentendendo com os integralistas cariocas chefiados por Adonias Filho. Achava-os reacionários demais. Depois que Getúlio acabou com o partido, fui para Barretos (SP), onde advoguei e fui promotor interino. Dirigi jornais e trabalhei muito com pecuaristas da região. Vim para São Paulo em 1944 para fazer o boletim da federação das entidades pecuaristas, mas em 1946 fui levado por Constantino Ianni para trabalhar na "Folha da Manhã", onde fiquei até 1962.
PB – O senhor ficou famoso por imprimir uma nova orientação ao jornalismo, na sua época. Como se deu isso?Mazzei – Quando assumi o cargo de redator-chefe da "Folha da Manhã", em 1952, os jornais de modo geral eram muito vinculados a órgãos governamentais ou a grupos fortes, como entidades de classe. Não havia muito empenho em fazer um jornalismo informativo de fato, que despertasse o público para os importantes problemas econômicos e sociais do país. Foi esse tipo de orientação que contribuí para implantar. Mandava meus repórteres atrás do assunto, com uma preocupação pela obtenção de fontes diretas, pelo estabelecimento da verdade, e ampliei a pauta, iniciando campanhas como a do meio ambiente, da preservação florestal, da poluição das praias. Do ponto de vista técnico, também consegui fazer uma modificação no texto de redatores e repórteres, estimulando o uso de uma linguagem que propiciasse um contato mais imediato com o leitor. A grande arma da "Folha" era a reportagem, nossos repórteres começaram a viajar muito, pois nosso lema era "buscar a verdade dos fatos onde eles se desenrolavam" – ao passo que antes nos contentávamos com relatos imprecisos, parciais, às vezes até simplórios, dos correspondentes nas cidades do interior. Outra reforma nossa foi a abertura de mais "cadernos" no jornal. Havia um segundo caderno na "Folha", mas praticamente consistia somente em crônica social. Diversificamos a pauta, introduzindo assuntos culturais. Eu mesmo assinei várias colunas de assuntos políticos e econômicos, com vários pseudônimos – o mais famoso foi Pedro Leite, que usei em minha coluna semanal, "O Sal de Sete Dias", que depois passou a diária, "O Sal de Cada Dia".
PB – Qual foi sua campanha mais interessante?Mazzei – Certamente a do Pontal do Paranapanema (SP). Um assunto que hoje ainda está mais atual do que nunca. A região havia sido decretada "reserva florestal", mas começou a sofrer muitas invasões por parte de fazendeiros, que se apropriavam das terras e destruíam a floresta. Naquele tempo, não era o MST... Um tema polêmico e quente, como se vê. E que dava muita dor de cabeça para a própria direção do jornal. Tive uma missão bem perigosa, na época. Viajei para aquela área com o colega jornalista Hideo Onaga, estimulado pelo deputado Cid Franco, que se interessava muito pela questão. Fomos para nos demorar vários dias e estudar de perto o problema das invasões. Na primeira noite que passamos lá combinamos dormir ao relento nas dependências da fazenda. Mas apareceu um homem, dos poucos favoráveis à causa da preservação florestal, que era mesmo presidente de uma associação, e me disse: "O senhor não pode ficar aqui, está sendo ameaçado de morte. Vá dormir no meu quarto". E assim salvou minha vida. Mas aquela situação era realmente muito perigosa, espinhosa. Deram-me no jornal uma semana para pensar, para realmente cessar a campanha. Dois dias depois convocaram um conselho de redação para decidir seu destino. Eu e outros da minha equipe não queríamos parar, de modo algum. Mas os representantes da "Folha da Tarde" e da "Folha da Noite", que integravam o grupo Folhas, decidiram o contrário. Achei que não podia agüentar aquela situação e resolvi pedir demissão do meu cargo. Isso foi em 1958. Continuei no jornal, como redator e cronista, até 1962. Aproveitei para viajar bastante, nessa época. Fiz viagens profissionais por todos os estados do Brasil, pelos países da América do Sul, mais tarde também pela América do Norte e pela Europa.
PB – Como viveu o período da ditadura militar pós-1964?
Mazzei – Foram anos terríveis, com os censores instalados nas próprias redações. Tive problemas, é claro, com a censura. Em 1964, eu já me desligara da "Folha", mas me mantinha como autônomo, escrevendo para vários jornais. Continuei sempre a fazer um tipo de jornalismo que eu definiria como "cauteloso mas inconformado". Em 1966, fundei e dirigi, durante 16 anos, o "Correio Agropecuário", no qual pude publicar até matérias que a censura proibira na grande imprensa – como a carta de demissão do ministro da Agricultura, Cirne Lima.
PB – Qual a diferença que vê entre o jornalista do seu tempo e o de hoje? Mazzei – Antigamente, o jornalismo era mais romântico. Tratava-se de um trabalho mais individualizado e de cunho local. As notícias internacionais demoravam a chegar e eram divulgadas por poucas agências, ou, nos maiores jornais, dependiam de correspondentes. O dinamismo das comunicações de hoje não permite mais isso, as notícias são transmitidas simultaneamente em todo o mundo, a profissão é mais coletivizada. Mas, como acontece em todas as áreas, há aqueles que se destacam, os grandes repórteres, os que arriscam até a vida para ir atrás da notícia. É uma bela profissão.



Entre seus redatores (da Folha) estava Mário Mazzei Guimarães, que foi chefe integralista da cidade de Colina, no interior de São Paulo, e mais tarde fez longa carreira como redator-chefe da Folha da Manhã [ mais tarde, Folha de São Paulo ] ( … )” .