sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses nº 41 - Prefiro o velho - Crônica do Emb. Renato Prado Guimarães


publicado originalmente em 4/11/2012
Prefiro o velho

                   As vicissitudes históricas do Hino são conhecidas. Depois da apresentação nas despedidas de Pedro I, foi tocado na coroação de D. Pedro II, em 1841, e desde então seguidamente interpretado, ainda sem letra, em atos civis e militares. Proclamada a República, esta se apressou em demolir e substituir as instituições remanescentes do Império e abriu concurso público para Hino Nacional consentâneo com o novo regime. O vencedor foi Leopoldo Míguez. Deu-se então, contudo, no próprio Teatro Lírico do Rio, onde se realizava a final do certame, o famoso “Prefiro o velho!” do Marechal Deodoro, que naquele mesmo recinto  assinou decreto que estipulava que se manteria na República, como Hino oficial, a composição imperial de Francisco Manuel da Silva. Para isso não terá contribuído apenas o gosto musical de Deodoro, mas também escritos na imprensa e calorosas manifestações populares em favor do antigo hino. A letra só seria escrita em 1909, por Joaquim Osório Duque Estrada.
                   À guisa de prêmio de consolação, o hino vencedor de Leopoldo Miguez, que ganhou mas não levou, virou o Hino da Proclamação da República, que podemos ouvir até hoje, bonito e correto.  Uma solução tão brasileira...
                   A meu juízo, por sinal, a peça de Miguez não desmereceria como Hino Nacional. Como, de resto, não destoaria a primeira a que foi aplicado esse título, o atual Hino da Independência, de autoria do próprio Pedro I. Duas peças também empolgantes, que fariam boa figura em qualquer Copa do Mundo do “The Guardian”.                        Ouçam as versões da OSESP, com Neschling à frente. Hino não é coisa que nos falte.
                   O Hino Nacional tem uma variante famosa: a belíssima Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, de Louis Moreau Gottschalck, músico americano, de Nova Orleans (origem que justifica o “créole” da qualificação do “The Guardian”). Filho de francesa e austríaco, parece ter-se revelado um extraordinário intérprete ao piano, a ponto de haver sido comparado ao contemporâneo Chopin, que o elogiara após uma apresentação na Salle Pleyel, em Paris. Andou por Guadalupe, Cuba e vários países sul-americanos. Teresa Carreño, a pianista venezuelana que deu o nome ao magnífico Teatro de Caracas, dedicou a ele seu primeiro concerto nos EUA, em Baltimore. Em viagens ao Prata, teria  composto um “pot-pourri” dos Hinos brasileiro, argentino e uruguaio. O saudoso Maestro Davi Machado assegurou-me ter visto a respectiva partitura no Arquivo Nacional. Não teve tempo para recuperar a obra, como chegara a prometer-me. Com um acréscimo paraguaio, poderia vir a ser o Hino do Mercosul –– de autoria de um músico norte-americano falecido um século antes!
                 Gottschalck deu numerosos concertos no Rio, em São Paulo e em Santos. Atacado pela febre tifóide, faleceria no Rio, em 1869.
                 A Grande Fantasia Triunfal foi estreada num mega-concerto, no Rio, com mais de 600 executantes, de orquestra e banda, incluindo 100 instrumentos de percussão e uma peça de artilharia. O êxito foi imenso. Nem por isso, contudo, a Fantasia se impôs; durante muitos anos sua execução era desestimulada, mesmo vedada, pelas autoridades militares, uma vez que dissonava do decidido por Deodoro em 1890, corrompendo – alegadamente - um símbolo nacional sacramentado pela Lei. Guiomar Novaes, intocável (como constrangê-la depois de o poderoso New York Times ter proclamado que ”nem toda geração pode ouvir uma pianista como Guiomar Novaes”?), costumava tocá-lo – espertamente ao final de suas apresentações, com o que granjeava aplausos cívicos, patrióticos, adicionais aos que normalmente já mereceria por sua insigne arte.  Dele há hoje inúmeras interpretações ao piano, gravadas em CD, como as de Cristina Ortiz (com a Royal Philarmonic Orchestra, de Londres), de Arthur Moreira Lima, de Miguel Proença e – claro – de Guiomar Novaes.
                   O Hino pode lembrar obras anteriores, brasileiras ou de alhures, mas de que é uma maravilha, ninguém duvida. Só nós mesmos, quem sabe?


SOBRE O AUTOR:

Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.
É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009.


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