sexta-feira, 20 de maio de 2011

Vou-me embora pra Colina - 3 - Colina paraíso



A nova versão da crônica inaugural Vou-me embora pra Colina, se desdobra em três crônicas

3 - Colina paraíso


A Embaixatriz Lídia, que é de Petrolina, outro dia me contou uma anedota de pernambucano que lembra muito Colina. O pernambucano, em Roma, depara com uma coluna de mármore num canto da praça, e, sobre ela, um telefone dourado e translúcido. Pergunta a um padre quê que era aquilo e o padre responde, prestativo: É para falar com o Paraíso. O pernambucano se surpreende, mas sempre prático pergunta: e quanto custa? O padre diz que a tarifa era cem dólares. O pernambucano segue viagem e nas proximidades de todo “dom”, toda catedral na Europa encontra o mesmo dispositivo – o terminal celestial. Pergunta o preço em toda parte, mas a tarifa é única: 100 dólares. De volta ao Brasil, chega a Colina e também ali topa, no largo da matriz, no centro do coreto, com a coluna redentora, o telefone dourado. Vê o pároco Santana passando e pergunta o preço, sempre prático, como bom pernambucano. O Padre responde: 25 centavos. Surpreso, o pernambucano esbraveja: Em toda parte o custo de falar com o Paraíso é 100 dólares, como em Colina pode ser só 25 centavos? E aí o Padre dá a explicação definitiva: É que aqui a tarifa é local.

Colina Paraíso? A cidade se proclama “Capital Nacional do Cavalo” mas eu prefiro outro título, que ela igualmente se dá, discretamente, mais íntimo e aconchegante: “Cidade carinho”.

Falei muito de Colina. Afinal, é o destino da hora e precisava apresentá-lo a vocês, até como um aperitivo para as visitas que espero me farão. De Frankfurt teria ainda mais a falar, esta cidade onde vivi 9 anos essenciais de minha vida, muito mais tempo do que vivi até agora em Colina – Frankfurt cidade agradável e amena, serena mas vital e vigorosa, acolhedora mas sem intimidades, cujo progresso até passa despercebido, tão perene, cotidiano, desde o passado mais remoto, que a gente até o dá por contado. Mas Frankfurt, vocês conhecem, e melhor do que eu; Colina, não.

Não é despedida, pois. Quando eu estava em Tóquio, Bettina e eu trocávamos visitas a cada dois meses sobre os 12.000 quilômetros que nos separavam. Nós contamos poder restabelecer esse “commuting” de longo curso entre Frankfurt e Colina. E para provar que não é despedida, a minha, recorro ao testemunho do José Soares, da TAM. Aqui está minha passagem da viagem aérea, de ida e de volta. Os céticos dirão que comprei de ida e volta porque é mais barato que só ida. De qualquer forma, a ida está marcada para amanhã, 9 de maio, e a volta, para... Ora, vamos deixar isso em suspenso.

Muito obrigado a meus colegas do Consulado, em particular aqueles que vêm ainda de meu tempo, tiveram a paciência de suportar-me, a Ana Lúcia, a Berenice, a Ruth, o Manuel, o Paulo – e a Christine, que estava sendo contratada quando saí. Muito obrigado a meus companheiros do Centro Cultural Brasileiro em Frankfurt, do Nexo do CCBF – o Carlos Frederico, a Susanne, a Beth, a Clélia, a Anna Bruhn, a Nina, as Vânias, por sua dedicada e competente contribuição para fazer do Centro um modelo de divulgação cultural do Brasil no exterior, para os locais e para os brasileiros aqui residentes, refrescando-lhes sempre as origens irredutíveis.

Muito, muito obrigado a todos vocês, amigos de Frankfurt, pelo evento de hoje e por sua companhia amistosa e reconfortante todo esse tempo que passou, companhia que também prezarei, estou certo, no tempo restante que passará.

Não é despedida, pois. Só um até-logo. Mas não posso deixar de admitir, a bem da verdade, e da emoção, que é um até logo carregado de saudades antecipadas.

Muito obrigado, mais uma vez, meus amigos.





1 Palavras do autor em evento no dia 8 de maio de 2.012, no Consulado Geral do Brasil em Frankfurt, desdobradas nesta crônica e nas duas seguintes.  

SOBRE O AUTOR:


Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.


É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009

Para contatos, usar o endereço de e-mail rpguimar@gmail.com
Aberto às suas opiniões, sugestões, etc...

para saber mais sobre o autor, por favor, acesse o link:
http://colinaspaulo.blogspot.com.br/2012/04/renato-prato-guimaraes-autor-colinense.html