sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses nº 58 - Botão-arte em Frankfurt - crônica do Emb Renato Prado Guimarães



Botão-arte em Frankfurt

O Tutu me assegura de que se jogou muito botão em Colina, antes da invasão dos jogos eletrônicos. Botão, sim, aquele futebol domestico, de mesa envernizada  ou de chão mesmo, no assoalho dos tempos sem synteko. Deixando ainda de reserva umas crônicas terminais da série,  prontas mas programadas para abril (esperem!), acho que dá para aproveitar texto de meu blogue em Frankfurt a respeito do botão-arte. Lá vai, pra ganhar tempo e mais leitores. Se eu organizar um campeonato, alguém topa?
Nas conversas de negócio,  pra botar banca e mostrar intimidade com as fontes do poder, há sempre quem  aluda a seus possíveis apoios como “grandes amigos meus: jogamos golfe uma vez por semana”. Durante algum tempo, o esporte de prestígio, de elite e dinheiro, era o tênis; amanhã poderá ser o polo... Ou algum outro, inesperado. Num encontro com empresários, em São Paulo, já aposentado, lembrei-me de amigos de Frankfurt que poderiam ser de valia numa operação de que se cogitava. E a eles me referi, casualmente, para valorizar a amizade: “Jogo sempre botão com eles”.

                           Um desastre. A conversa de negócios, promissora, esvaziou-se, a operação comercial foi prontamente esquecida. O prosaico botão passou a dominar a berlinda, e por longo tempo. As perguntas vieram em cascata: em Frankfurt? Botão mesmo? De fábrica ou de roupa? Plástico, acrílico? O goleiro ainda é aquela placa pequenininha, que se manobrava com um arame encaixado atrás? Ou é de caixa de fósforo, chumbada? E as regras? Um, dois, três toques, ou se mantém a posse da bola sempre que se toca nela? A bola: é redonda, ou chatinha, botão de camisa ou de cueca? De feltro, de acrílico? Jogam no chão ou em mesa? E quem joga? Só brasileiro, ou alemão também? Como são os campeonatos?

                            Prestados os esclarecimentos devidos, começou aquela conversa de pescador, sobre façanhas de infância. Todo mundo tinha ganho o campeonato, com glória, nenhum vencido se apresentou. Houve quem dissesse que sua especialidade era fazer gol olímpico (!), outro falava de como tinha um botão especial, alto (do capote do avô), que marcava gol de cabeça. Eu, claro, para não ficar atrás (não nos feitos, mas nas lorotas), não me furtei de contar os gols de bicicleta que havia marcado em priscas eras (o artilheiro  era o botão de uma capa também avoenga, muito convexo, acionado de barriga côncava para cima - inventei na hora, para explicar aos incrédulos; chamava-se  Leônidas da Silva).



                            Saudável. Relaxante e rejuvenescedor.

                           Nas partidas de Frankfurt, a discussão e as provocações são de regra, e acaloradas, embora sempre amistosas. Tanto se questionaram as regras, e tanto se maltratou as três principais observadas no Brasil (a pernambucana, a carioca e a paulista), que resolvemos combinar nossas lembranças de como jogávamos décadas atrás e elaborar uma regra própria, ecumênica. O subgerente do Banco do Brasil empregou todo um fim de semana redigindo o que ao cabo foi batizado de “Regra Frankfurt”. A apurada tecnologia de manuais do Banco virando embrião de norma esportiva internacional... (se alguém quiser testá-la, é só me falar, que dou o site; ela está na Internet!). Só faltou, na norma, proibir palavrão em campo: nunca vi jogo pra dar tanto nome feio! Cada erro de passe, ou de finalização, uma mãe ofendida, um m....a!!!!!! sonoro. Também tinha muito pô (ver Colinenses a respeito desse eclético vocábulo).

                          Os estádios são de fabricação brasileira, o “Marcão”, para os adultos (é do Marco, da Boehringer), e, para as crianças, o “BBzão” (pertence ao supracitado craque do BB). Os times são comprados no Brasil, via Internet. O meu, fui escolher e contratar pessoalmente, numa fabriqueta em Pinheiros, São Paulo, que anuncia na web sua capacidade de produzir times de todo o mundo, incluídas as seleções nacionais. Meu fornecedor só vende por encomenda e não tinha para pronta entrega o time de minha predileção em São Paulo (com muita saída, favorito do público, e que não declaro, generoso, para não causar ira aos corintianos, palmeirenses e santistas, nem humilhá-los);  improvisou, contudo, trocando a camisa (mudando os rótulos) de um time encalhado da seleção dos EUA, também de fundo branco. O goleiro vem em acrílico transparente, formato caixa de fósforos, com a imagem do titular a cores. Pena que a Regra Frankfurt não permita que goleiro bata falta... Cartolagem.

                           Na citada loja me falaram de compras  de toda parte, vi encomenda sendo empacotada para remessa a Cingapura.  Ali também aprendi o uso de lixas e lubrificantes mágicos para fazer os botões deslizarem com mais facilidade e precisão. Soube igualmente de inovações tecnológicas promissoras para aprimoramento do desempenho botonístico, como a dos  jogadores “resinados”.

                            Aos curiosos, e saudosos, recomendo pesquisar por “futebol de botão” na web. Vão se surpreender com o número de sites dedicados ao nobre esporte, tratando com toda a seriedade de regras, campeonatos e campeões, e anunciando produtos variados para sua prática, dos botões, palhetas, lixas e deslizantes, bolas e traves, aos troféus e diplomas – que ninguém joga de graça e sempre impressionam e dão prestígio aquelas testemunhas concretas da augusta glória botonística.

                           Botão não é brinquedo, não. É esporte, competição.  E, no meu caso, triunfal, também arte.

                           Botão-arte...
                           Futebol bonito. Gol olimpico, de bicicleta...
                          
                           Haja saudade!

SOBRE O AUTOR:

Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.

É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009
Para contatos, usar o endereço de e-mail rpguimar@gmail.com
Aberto às suas opiniões, sugestões, etc...

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