sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses nº 34 - Vãs esperanças - Crônica do Emb. Renato Prado Guimarães



Vãs esperanças


De meu blogue em Frankfurt, postada em fevereiro de 2012:



“Estórias verdadeiras, lições de civismo para todos nós, brasileiros:

O letreiro na estrada avisava: ponte interrompida, na entrada da cidade, congestionamento à frente. Resolvi tentar um caminho de contorno. Deu certo, até um certo ponto. De repente, me sinto perdido. Não sabia onde estava, que rumo tomar para chegar a meu destino. Noitinha, já. Pergunto num posto de gasolina, me dão uma indicação vaga, de direção. Lá vou eu. O bairro era desconhecido, e deveras amedrontador, sobretudo no escuro da noite que se impunha. Quinze minutos na direção recomendada, e nada de encontrar a avenida desejada. Num semáforo, ouso baixar o vidro da janela e acenar para um carro parado ao lado, à esquerda, janela também cerrada. O motorista nota meu sinal e se estica do volante sobre o banco do passageiro, abre seu vidro direito e ouve minha pergunta angustiada: nesse rumo, vou dar na avenida X? Ele pergunta, em resposta: Mas para onde o Senhor quer ir? Respondo que para o bairro Y. Ele hesita um momento e de súbito me diz, resoluto: Me segue! Corta à minha frente para mudar seu próprio rumo, e vai em frente, à direita. Segui, relutante e preocupado, avaliando riscos, lembrando assaltos, mas fui em frente. Afinal, estava sozinho, sem ninguém mais com quem preocupar-me, no carro. Acompanhei meu guia por uns dez minutos, dobrando esquinas, cruzando avenidas, esperando sinais. De repente, numa rua arborizada, deserta e escura, ele para o carro, abre a porta e vem em minha direção. Paro também. Permaneço no carro, guento firme mas abro o vidro. Ele diz: O Senhor agora dobra na próxima à direita, direita de novo e outra vez à direita. Aí o Senhor cai na avenida que leva ao túnel que passa aqui por baixo. No fim do túnel, o Senhor estará no começo do bairro Y. Confirmo as três direitas e agradeço. Ele responde, com naturalidade, já se movendo para seu carro, quinze metros adiante: De nada, sempre às ordens!

***

O Volks à frente brecou de repente. Quase bati. Até estercei para a direita, para ganhar espaço e evitar o choque. Não entendi a brecada súbita, completamente de surpresa, para mim. Ia reclamar, mão já na buzina, mas aí noto que uma Senhora estava começando a cruzar a faixa, adiante do Volks, e fora a razão para a freada inesperada. Dei-me conta de que o culpado era eu, que não havia atentado para a transeunte e me prevenido em tempo para a brecada na frente. Engoli o xingamento e acabei acompanhando com deleite a amistosa troca de sinais entre o motorista e a pedestre, esta agradecendo com um sorriso e um aceno jovial, ele respondendo com aquele prazer comunicativo que acompanha os gestos de boa-vontade. Percebi depois como esse diálogo feliz e reconfortante se repetia em todo cruzamento, choferes e pedestres encantados de poder ceder e usar a passagem segura, bem como de se agradecerem alegremente, em mútuo e afetuoso reconhecimento.

***

A rua era íngreme e a calçada era “em comporta”, intercalada de degraus que a dividiam em patamares, para facilitar a subida e a descida. Perco um degrau, dou um passo em falso e despenco. Nem tenho desculpas: o degrau estava perfeitamente assinalado, com um amarelo tão nítido que parecia recém-pintado. Pura distração. Vou a meio caminho da queda, preocupado com o choque que virá, e já vislumbro dois vultos à distância, disparando para ajudar-me. Caio bem (dizem que eu sei cair bem; lições da vida). Ia começando a levantar e o socorro já estava a meu lado; devem ter, os dois, estabelecido novo recorde para os cem metros com obstáculos – os degraus. Seguram-me no chão, com enérgica gentileza, não deixam que me mova. Perguntam pelo braço, pelo joelho, pelo pescoço, pela cabeça. Sentindo alguma coisa? Tontura, mal-estar? Mexe o cotovelo, devagar, estende o joelho, com cuidado! Tento me livrar da ajuda, vexatória para o caído, e mostrar que sou forte e estou bem e inteiro – como sucede sempre nas quedas. Acabam deixando que me levante, ajudando-me com vigor no movimento. Um deles vai buscar um banco que vê uns metros adiante. Sente-se aqui, para descansar, recuperar-se. O outro recolhe óculos, chaves, iPhone, espalhados pelo chão. Custou bem uns três minutos livrar-me do socorro inesperado e constrangedor. Agradeci, impressionado com tanta solicitude e civilidade. De nada, sempre às ordens, foi a resposta, singela, natural.

***

De pé, faço aquele gesto automático de limpar a roupa depois da queda. Olho em volta, para checar a sujeira do chão, e não vejo nenhuma. Estendo o ângulo do olhar, foco os olhos mais longe, e não enxergo sujeira. Percebo então como estava tudo bem limpo, minha roupa incólume. A partir daí, fui testando em toda parte: admirável, surpreendente, mesmo, a limpeza geral, naquela parte da cidade, classe média baixa. Chequei no centro antigo, também, a mesma coisa. Nada de ponta de cigarro, papel de bala, palito de sorvete, nem falar em lixo abandonado.

***

Entro no taxi, afobado. Dou o endereço de destino. O motorista se vira: O Senhor pode fazer o favor de usar o cinto? Tão polido que me havia dado bem uns vinte metros de trajeto, paciente, à espera de que eu me dignasse a observar a norma de segurança. Mas a gentileza não ficou nisso. Foi eu acabar de amarrar o cinto e ele arrematar: Muito obrigado, !



Isso tudo na Alemanha, onde morava?


Não, tudo isso em São Paulo, minha terra!


 Que alegria, que cívico orgulho!


 Tá melhorando, gente!”


SOBRE O AUTOR:

Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.

É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009.


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