sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses no. 26 - Casaca no varal - crônica do Emb Renato Prado Guimarães



Casaca no varal


Noto um alvoroço no quintal, onde ficam os varais de secar roupa. Vou  ver e topo com a empregada, Rosa, atônita diante dos trajes pendurados; ao lado dela, curiosos, e boquiabertos, pedreiros e pintores que trabalhavam na reforma da casa. E mais gente começa a chegar, acho que veio gente até da rua ver.  Tanto tempo eu não as via que custou um pouco reconhecer as roupas que a Rosa resgatara de alguma mala velha e pusera para tomar ar. Mas a identificação era inevitável: estávamos diante de minha solene casaca e de um smoking antigo, de inverno.  Tudo de casimira, preta, retinta, até o tecido acetinado das lapelas reluzindo no contraste ao sol luminoso do dia.

Haja contraste! Casaca ao sol de  Colina...

Ia dizer que pode ter sido a primeira na cidade, mas de chofre parei a escrita gabola. Muita casaca deve ter sido usada aqui, em cerimônias oficiais, no Século passado. Ademais, as casacas sóem aparecer quando menos se espera, e por que não em Colina?

Como? Aparecer de repente, casaca?

Leiam esta estorinha, tirada dos rabiscos de minhas “Crônicas Tardias, Memórias Precoces”, ainda inéditas:

O Cerimonial português exige e impõe: recepção com casaca e condecorações na visita de Estado do Presidente Sarney a Lisboa. Pânico no Cerimonial brasileiro: quem tinha casaca, àquela altura, em nosso Brasil tropical e tão informal?  E a delegação do Presidente era nutrida. Armou-se rapidamente um mutirão: funcionários jovens foram recrutados para telefonar a todos os membros da comitiva, a fim de alertá-los para a necessidade do traje.



A um Terceiro Secretário coube a tarefa delicada de chamar um importante deputado, baiano e comunista. Cheio de dedos, não reluta em jogar em cima dos portugueses a culpa pela exigência insólita, elitista, reacionária, burguesa, capitalista,  nada a nosso gosto, dá voltas e voltas e acaba chegando onde tinha que chegar: “O Deputado pode sempre alugar uma casaca no Rolas, no Rio. Eu tenho até o endereço aqui, se o senhor quiser”. O silêncio do outro lado da linha deixa o colega preocupado. E com razão, embora inesperada, pois quando o parlamentar marxista retoma a conversação, ele reclama, em tom ofendido: “Alugar casaca, eu? Pois saiba o Senhor que eu tenho três: a do meu avô, a de meu pai, e a que eu mandei fazer para o meu baile de formatura. Vou é experimentar para ver qual me cabe melhor”.



Pois é. Marxista também tem casaca...



O resto da estória é igualmente  engraçado:



Esse era o problema para quem dispunha da vestimenta desusada.  Os privilegiados (?) foram logo a) tirar a peça da naftalina; b) expô-la ao sol e ao vento desodorizantes de Brasília, a fim de amenizar o cheiro revelador do vasto tempo sem uso; c) experimentar para ver como caía no corpo expandido nos anos implacáveis do intervalo; d) perguntar logo por “aquela dieta” de emagrecimento imediato de que ouvira falar dias antes, e para a qual, distraído, não havia atentado como deveria.



Desse momento me lembro de sábia observação de Embaixador de escola antiga, que proclamava que o diplomata deveria orgulhar-se não das promoções e dos postos que tivera, das delegações que presidira ou dos tratados que negociara, mas sim de façanha a seu juízo mais alta: poder ainda entrar, ao aposentar-se,  na casaca do tempo de Terceiro Secretário - de quando iniciara a carreira...



De fôlego preso, barriga encolhida,  na minha ainda dá para entrar (eu levo a vantagem de que era gordo quando comprei...). Em cinquenta anos, usei-a uma vez na apresentação de credenciais de meu Embaixador no Grão-Ducado de Luxemburgo (Embaixada cumulativa), outra em festa da Corte em Bruxelas, e a última naquela recepção em Portugal.  No Brasil, só a tive no corpo nos provadores sombrios da velha “Tour Eiffel”, na rua do Ouvidor, no Rio, onde a comprei de meia-confecção, a prestação, encorajado por colegas mais antigos e pelo preço, de ocasião. Isso a sério, em função probatória ou diplomática. Pois mais de uma vez a enverguei ante minhas filhas pequenas, que adoravam ver-me nela, macaqueando pela casa com a cartola do fraque. E a ela também recorri naqueles bailes de carnaval inesperados, que os brasileiros às vezes organizam de última hora no exterior, subitamente arrependidos de não estarem no Rio. À falta de outra coisa que inventar, cabe muito bem como fantasia, sobretudo quando se leva por baixo uma camisa da seleção, de preferência na versão azul, que combina melhor.



Mas para o pessoal mais novo parece mais roupa de Matusalém... Como de fato é.  

O smoking? Também de casimira, muito pesado, abandonei-o logo, quente demais nos ambientes normalmente superaquecidos das festas de black-tie. O fraque, antigamente também parte obrigatória do enxoval do diplomata? Está na minha mudança de Frankfurt, ainda em Santos, aguardando processamento na  Alfândega.

Ridículo, tudo isso? Sem dúvida, é.

Agora.

No passado eram  vestimentas da praxe, inescapáveis, como o jeans é hoje, junto com a camisa polo. Atualmente são quase um estigma, contagiam quem as usa com o ridículo do inusitado.

Há muita caricatura de diplomata em que ele enverga a casaca obsoleta. Mas quem vê o hábito não vê o monge. Vestindo a casaca antiga pode haver gente moderna, atual, e do Itamaraty já se disse que é uma instituição eternamente moderna.  A mesma coisa com relação ao injusto clichê dos “punhos de renda”: sob o tecido delicado da moda efêmera pode haver pulso firme, decidido e vigoroso  na defesa dos interesses nacionais, ao longo da História.

Não só “pode haver”: houve! Basta olhar nossas fronteiras!

Casaca, smoking... Estou pensando: quando chegar o fraque, junto os três e vou doar ao  Museu de Colina, ali na Estação... 

Mas será que alguém guardou alguma, em Colina?

Afinal, não é preciso ser deputado comunista para ter uma (ou três!) no fundo do baú.

SOBRE O AUTOR:

Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad ínterim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.
É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009.
Para contatos, usar o endereço de e-mail rpguimar@gmail.com
Aberto às suas opiniões, sugestões, etc...

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