sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses no. 18 Buraco no mapa - Crônica do Emb Renato Prado Guimarães




Buraco no mapa

                     Resolvo ir a Brasília, de carro. Ansioso para reviver, no trecho entre Colina e a Capital, a viagem que em priscas eras tantas vezes fizera, da Capital até São Paulo, e vice-versa. Dezessete horas cravadas naquela época, no fusquinha ano 1961, ainda 180 km de terra entre o Trevo e Frutal; onze  horas e quinze minutos, depois,  no Passat e no Santana mais avantajados das décadas dos 70 e 80.  O recorde foi num Mercedes 280 S, dos tempos em que diplomata podia dar-se ao luxo de trazer carro importado: nove horas e quarenta e cinco! Pudera, acho que trouxe o carro só para fazer aquela viagem e marcar esse tempo imbatível na vasta quilometragem de minha vida peregrina. Vendi logo depois.
                     O GPS me quer levar, agora, via Ribeirão Preto, Uberaba, Uberlândia, Trevo de Minas, Itumbiara, Goiânia. Desobedeço (a moça chiou, eu xinguei; locutora de GPS tem mãe?) e vou por Barretos, Colômbia, Frutal, o Prata – e aí me curvo à imposição do GPS (e à autoestrada dupla; ninguém é de ferro), seguindo por Goiânia e Anápolis. Admirei muito o crescimento de Goiânia, mas não gostei de passar por ela: 25 km de “perímetro urbano”, a autoestrada virada rua, cruzamentos, zebras, sinais e pardais a cada 200 metros. 
                    (Para mim, estrada é também uma forma de liberar-se, aliviar o estresse, provar novos rumos, sondar horizontes, como tão bem sugerido na expressão “pôr o pé na estrada”. Libertei-me muitas vezes por muita estrada da vida. Hoje em dia, contudo, são tantos os sinais, as advertências, os alertas, as faixas, as placas, os limites, as lombadas, as valetas, os “perímetros urbanos”, os redutores sonoros, os semáforos, os pardais, que a gente se sente um prisioneiro no tráfego – mesmo quando não há congestionamento. O caminho tornou-se uma prisão – o carro um cárcere em movimento. Será que exagero?). 
                    Na volta de Brasília, resolvi retraçar meu trajeto histórico: Cristalina, Catalão, Pires do Rio, Araguari, Uberlândia. Muito melhor: estrada simples mas descontraída (caminhões solidários e sociáveis, que até sinalizavam quando dava para passá-los, e respondiam, gentis,  ao “fon-fon” de meu agradecimento). 
                    Cruzando na crista altaneira do planalto, temperatura amena, sol cristalino, entre o céu e o cerrado, dois espaços infinitos, senti-me novamente com  “o pé na estrada” – e a alma também.  Já perto de Uberlândia, a barra fica pesada, pois a estrada está sendo duplicada e, como se sabe, nada pior do que estrada que vai ser substituída: ninguém se dá ao trabalho de consertar. 
                    Continuo até  Uberaba e aí faço a besteira: em vez de seguir mais adiante na confortável autoestrada, por caminhos mais convencionais, resolvo cortar até Barretos via Miguelópolis e Guaíra. No começo, tudo bem, ou mais ou menos, o caminho meio congestionado ao longo dos motéis que semeiam, sugestivamente, a redondeza de toda cidade do interior,  estrada com pavimento desgastado e  desníveis frequentes.  De repente, surge uma ponte, muito antiga, paralela a uma barragem (Volta Grande), cruzo o Rio Grande e eis-me em terra paulista. Respiro aliviado: as estradas de São Paulo  são afinal o paradigma nacional, sul-americano, latino-americano – vias modelares, de qualidade a toda prova. Paulista, e ufanista, meto o pé na tábua – e quase dou com o pé na cova.
                      Do primeiro buraco, escapei, lépido. Do segundo, não. BAAM! Daquela marcação em cima do Nessi e do Neymar: você dribla o primeiro mas o segundo te derruba. Estremeci, como o carro – este como que gritou de dor e pânico, uma bossa imensa cresceu no pneu dianteiro, como um galo em minha cabeça dura.  Consegui domar a fera, a muito custo, engatando a reduzida na modernosa transmissão CVT. E tentei me ajustar, conformado, a uma estrada obviamente há muito tempo sem conservação. Mas não deu; embora lento na velocidade, muito rápido descobri que a estrada já não era, como na frase saudosista de Drummond, “Minas já não há”. Eu havia  caído no buraco da estrada e de repente me dou conta de que a estrada havia caído  no próprio buraco. 
                     Simplesmente deixou de existir. Felizmente, descobri uma trilha no ex-acostamento e, melhor ainda, um carreador paralelo, acompanhando os canaviais. Por este segui até que encontrei um caminhão solitário, a cujo motorista perguntei, angustiado: essa estrada vai até Barretos? Ele respondeu, seco e realista: Que estrada?
                    De volta a Colina, enquanto o Toninho da borracharia coçava a cabeça para desinchar  o galo do pneu, pus a boca no mundo: esse pessoal de Guaíra e Miguelópolis é irresponsável, como deixa a estrada simplesmente desaparecer,  deixar-se engolir por um buracão comprido de dezenas de quilômetros? 
                    Para minha surpresa, chovia no  molhado. Muita gente em Colina sabe do problema. Diab Taha pontificou: esse trecho economiza 40 quilômetros até Uberaba, Uberlândia, Brasília, eu próprio tentei ajudar os prefeitos da área a conseguir do Governo a recuperação de seu leito, mais de dez anos atrás (para tapar o buraco longilíneo, bom mesmo um Prefeito de Colina, a cidade que logrou o feito memorável de domar o intratável Buracão...). Sem sucesso, o amigo Diab, aparentemente, pelo estado atual da estrada (que estrada?).
                   São Paulo, o Estado das melhores estradas – e também o dos maiores buracos! Ainda com o galo na testa (do pneu, já condenado a estepe), eu tenho que momentaneamente renunciar a meu ufanismo rodoviário paulista e proclamar, a contragosto, meu desapontamento, minha frustração, minha revolta. 
                  Até quando, São Paulo? 
                  Enquanto não se tapa o buraco imenso, seria o caso de tirar a estrada dos mapas rodoviários, a fim de evitar que outros incautos como eu tentem passagem por ela – o desafio transcendente de atravessar o nada. 
                  Manda a lógica que ponham o buraco no mapa. 



SOBRE O AUTOR:


Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido aEmbaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.
É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009.

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