sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses no. 25 - Magnata! Pô! - crônica do Emb Renato Prado Guimarães



Magnata! Pô!

               Não que eu não tenha tido contrariedades na cidade. As contas do pintor, a impontualidade do eletricista, as palmeiras que vergam, reverentes, embora Imperiais, à brisa soberana da colina. Mas esta! Se algum dia conseguisse subir às nuvens, delas teria caído naquele momento.

Vou jantar na pizzeria da praça. De repente, surge, como sempre jovial e amistoso, meu simpático vizinho Angelim. Dirige-se a nossa mesa, risonho, saúda com singular ênfase e inflado respeito, pronunciando sonoramente:

-Olha o magnata!

Não entendi, nem acho que o entenderam os demais comensais. Ele explica: Outro dia veio um conhecido perguntar

1) se era verdade que tínhamos agora um magnata como vizinho, e

2) o que queria dizer magnata.

Angelim diz que explicou o significado do termo, foi buscar um dicionário para ser preciso, e, ao cabo, proclamou, convicto: Sim, temos um magnata como vizinho! E seu gestual não dava margem a dúvida: o magnata era eu! E um magnata bom vizinho: tinha até ido, de iniciativa própria, apresentar-se a ele, Angelim, assim que chegou à cidade, deixando-lhe um cartão de visita e o solícito oferecimento de seus solidários préstimos.

Magnata, eu, que passara a tarde de sábado em cálculos e mais cálculos no Excel, soprando na receita pra ela crescer e espremendo a despesa na esperança vã de que murchasse; depois conversando, angustiado, com minha irmã, sobre a parte de meu orçamento que toca ao sustento de nossos pais, mais apertados de dinheiro, eu e a família, do que elefante no elevador, do que cueca de político honesto? Engoli o elogio (?) do Angelim, por bem intencionado, embora pro meu gosto meio empolgado demais, ele, com a nova vizinhança, supostamente opulenta.

Mas achei esta crônica aconselhável para prevenir expectativas imprudentes, desfazer ilusões ingênuas.

Primeiro falei de novo com minha irmã, para aliviar suas preocupações, e disse que o Angelim havia resolvido todos os nossos problemas financeiros. Rimos muito. Depois fui conferir no Dicionário do Houaiss, como o amigo deve ter feito no do Aurélio (prefiro o Houaiss,que foi meu colega):



Magnata:



1     título dado aos membros da alta nobreza polonesa e húngara

2     indivíduo poderoso, muito rico, influente; chefão, maioral

3     importante capitalista



Não qualifico para o significado 1, por motivos óbvios: não pertenço à “alta nobreza”, nem sou – ou fui - polonês, ou húngaro. Com respeito ao significado 2, não sou “muito rico” e me falta temperamento para “chefão”, apesar de nunca ter sido chefinho. “Influente”, posso ter sido, “maioral” posso ainda ser, com meus 1,84 m de altura e sofridos 91 quilos (dá pra engordar mais e crescer, fácil). “Importante capitalista”? Ora bolas! (ou Pô!, em linguagem moderna).



Para o  leigo, hoje, a acepção mais corrente do termo é a de que magnata é aquele potentado econômico que a tanto chegou por meios  equívocos. Tampouco nessa definição eu caibo. Quem quiser, pode tomar as medidas em minhas planilhas espremidas do Excel. Ou nas declarações irrefutáveis do IRPF.



Por que o “magnata!” do Angelim e de seu alegado conhecido, então? Minha irmã ofereceu uma explicação benigna: eles simplesmente confundiram diplomata e magnata! (Eu tinha contado a ela que meu amigo Júlio, o do Bar do mesmo nome, e a quem me apresentaram como Embaixador, apresentou-me por sua vez, a terceiro, como “Disembarguardor”, o que comprova o desprestígio da “carreira” nestas plagas singelas). Em defesa da educação e cultura de meus amigos, eu arguí que o Angelim jamais faria tal confusão, de diplomata com magnata. Nem o Julio, por sinal.



Mas será que eles acham que o diplomata é um magnata? Não conheço nenhum diplomata, brasileiro, que corresponda ao vocábulo, embora os haja, uns poucos,  abastados, menos pela profissão do que por bens herdados, de raiz tradicional. Quanto a mim, nem como abastado qualifico; vivo da aposentadoria e tenho apenas a casa que comprei em Colina, por preço alto, aqui, mas que em São Paulo não dá pra adquirir um quarto-e-sala em bairro secundário.



E a tralha que carrego, móveis, quadros, tapetes, objetos, medalhas, roupas exóticas? Meras ferramentas do ofício, vistosas mas já obsoletas, que a gente guarda menos pelo que valem e servem do que pelas lembranças que nos trazem – marcos de vida.



O marceneiro se aposenta com um monte de serras, formões, plainas, esquadros, martelos,  que foi usando através dos anos e acabam esquecidos em algum canto da casa; meu pai, jornalista, conservou milhões de recortes de jornal e, mais significativas, oito Olivetti portáteis, e inúteis, que foi adquirindo na medida em que os tipos se gastavam e se tornavam ilegíveis de tanto o dono bater tecla; o militar guarda e reverencia suas armas e fardas; o diplomata acaba com essas coisas que foi acumulando dia a dia, ano a ano, posto a posto, em seu afã e obrigação de representar condignamente o país lá fora.  (Na minha geração, era regra não escrita mas universalmente obedecida: o jovem diplomata não podia alugar morada sem que seu chefe, o Embaixador, certificasse que o imóvel era adequado para a condigna representação do país no lugar; e o primeiro almoço, ou jantar, era para o Embaixador – e a Embaixatriz! – a fim de que estes (especialmente ela, frequentemente tirânica) se convencessem de que o jovem casal estava em condições de receber corretamente as pessoas gradas da sociedade local). Com respeito às roupas antigas do ofício, verdadeiros resíduos históricos, o que fazer com elas se não conservá-las, claro que  em boa naftalina? Não dá pra jogar fora. Ainda vou escrever sobre minha casaca  de cinquenta anos quase sem uso, cujo vulto negro reencontrei outro dia,  exposto ao sol brilhante de Colina).  



Junta toda a tralha da casa, e vende, diretamente, ou em leilão (já pensei nisso), e não dá pra apurar o valor de um alqueire de terra boa no caminho pra Jaborandi. Se houver quem queira dar em troca uns hectares de boa seringa, topo!



Vou convidar o Angelim e seu conhecido curioso para tomarem um café aqui em casa. Aí vou poder explicar-lhes isso tudo que está aí em cima.       E talvez até agradecer-lhes por me haverem chamado a atenção para o absurdo: alguém ver-me como um magnata (pô!) em minha cidade eleita.



Magnata? Ora bolas! Pô....!



A indignação é tanta que quase me distraio e driblo o eufemismo, digitando o pô todo, menos elegante mas mais sonoro e expressivo em seus rr e etc. originais.



P.S.- Ora bolasexprime zanga, desaprovação ou enfado(Houaiss). – exprime espanto, aborrecimento, desagrado, enfado, dor (Houaiss). Segundo o Aurélio, indiscreto, é “variante eufemicamente apocopada” de p....




SOBRE O AUTOR:

Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad ínterim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.
É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009.
Para contatos, usar o endereço de e-mail rpguimar@gmail.com
Aberto às suas opiniões, sugestões, etc...

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