sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses nº 50 - Obrigado, por enquanto - crônica do Emb. Renato Prado Guimarães





Obrigado, por enquanto

                Mais uma vez me cobram: você só fala bem de Colina, não tem nada de errado nela? Até que tem, mas acho sempre que o bom é tão maior do que o ruim que este se torna irrelevante. A crítica, o reparo, vira mera implicância.

                Por exemplo. Por que tanta gente, aqui, expressa seu agradecimento deste jeito equívoco?

               - Obrigado, por enquanto.

               O agradecimento é espontâneo e sincero, mas assaz indelicado; um tanto mecânico, como todas as fórmulas de cortesia, mas no caso impensado. Se for pensar...

               O ”por enquanto” é uma condição, ou mesmo uma ameaça: grato, sim, mas... A gratidão é momentânea e desconfiada, suspicaz: tudo bem agora, depois veremos... A expressão adverbial já presume que o destinatário do agradecimento pode logo fazer por não merecê-lo em seguida. O agradecimento traz consigo uma descortesia maior do que a gratidão.

                De onde vem isso? Adotado “de ouvido”, a partir de alguma tradução infeliz de filme estrangeiro na televisão? Mas eu nunca ouvi nenhum americano dizer “Thank you for the moment”, ou francês agradecendo mediante um “Merci pour le moment”.

               Verdade que ainda não ouvi em Colina outra inovação vernacular absurda, com a qual também implico e muito frequente na Capital: o “de menor” para qualificar quem tem menos de 18 anos: “o bandido era de menor”, o expletivo corrompendo o mero “menor” e, por aí, o idioma.

              Bobagens, claro. Mas se alguém quer ouvir reparos à Colina esplêndida, aí vai meu “Muito obrigado, por enquanto”.

              Isso aí me lembra perplexidade de meus tempos adolescentes. Sempre estranhei a palavra “sindical”, que em São Paulo denominava, então, aquelas motos de três rodas, com uma carlinga à direita, para levar passageiro (ou uma metralhadora), e que hoje em dia só se vê em filme da II Grande Guerra, ou em desfile de motoqueiro de fim de semana.

             De onde vem isso, que que tem a moto com o sindicato?

             Demorou cair a ficha, que era mesmo retorcida. Minha tese: O nome original, em inglês, é “side-car” (pronúncia saidecar); ignorou-se o “ai” do “i” inglês (nem todo mundo pode ser assim tão sabido!), ficou sidi mesmo, nosso e átono derivando para o i quase mudo (mati, parti, lati). Sidicar, pois. Mas como o “car” soava caipira, os da elite culta (?), que era quem tinha moto naquela época, passaram a pronunciar “cal”, mais chique, cosmopolita, e supostamente correto (pois o certo não é animal, nunca animar?) O saidecar virou sidical; daí pra aderir ao sindicalismo (eram tempos de getulismo) foi um pulo; como por gravidade fonética, intromete-se um n no meio e ergo: sindical!

             Vejo agora que o Aurélio incorporou o vocábulo a nosso vernáculo, na forma e pronúncia corretas, tais como importadas e sem componente nacional:

side-car (sáid’ –car): Carrinho que se prende ao lado de uma motocicleta; P. ext. O conjunto da motocicleta com o side-car.

              Já o Collins inglês dispensa o hífen e escreve “sidecar”, acrescentando-lhe, todavia, um significado mais moderno e tentador: o do coquetel com brandy, Cointreau e suco de limão.

             Tinha visto em menu de bar na Europa, mas nunca provei.

              Nem, por sinal, andei na moto sindical.

             Ao cabo da crônica, sinto-me no dever de agradecer pela paciência amiga todos os leitores que chegaram até aqui.

            Muito obrigado!

            Por enquanto?


SOBRE O AUTOR:

Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.



É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009



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