terça-feira, 22 de setembro de 2015

Colinenses nº 68 - crônica do Emb Renato Prado Guimarães


Velório errado

Na Praça Matriz ouço os alto-falantes da Igreja anunciarem o falecimento. Surdo, não consegui captar o nome do falecido, embora ouvisse que o velório seria às 15:00 horas. Topo em seguida com o Maringá, que me diz: “Soube quem morreu? O Dito Gomes, seu vizinho”.

Claro que à hora marcada eu estava lá. Não vi ninguém conhecido (mas quem sou eu, recém-retornado, para conhecer toda a gente de Colina, e ser por ela conhecido?) e fui logo aos parentes dispostos ao lado do caixão, a quem transmiti minhas condolências e falei bem do morto.

À saída topei com um conhecido, afinal: o Dantinho Guarnieri, a quem também falei bem do falecido. Mas aí o Dantinho me esclarece - e estarrece: o enterro do Dito fora de manhã!

Foram dois mortos no dia e eu fui ao velório errado! As informações eram verdadeiras, quanto a pessoa e hora, mas cruzaram numa combinação enganosa, perversa.

Não tinha a quem culpar, nem a mim próprio, mas fiquei muito sem graça com a gaffe. Tentei repará-la com uma carta de pêsames à família enlutada. Os muitos amigos do Dito poderão gostar de também lê-la:

Colina, 21 de outubro de 2014


           Soube tarde do falecimento do Dito. E me disseram que o enterro seria às 15:00 horas. A essa hora estava, pontualmente, no Velório, mas lá soube, por meu amigo Dantinho Guarnieri, que o sepultamento já tinha ocorrido, pela manhã. Lamento minha ausência naquele momento derradeiro, mas isso não me impede de expressar, por esta via, e embora tardios, meus sentimentos de pesar à família enlutada.

         Pouco convivi com o Dito, no curto período de minha permanência em Colina. Mas nele tive um vizinho invariavelmente atento e prestimoso, um amigo desinteressado e despretensioso, com a simplicidade genuína e inteligente dos que a própria vida consegue fazer sábios. Nos poucos dedos de prosa que com ele pude ter o privilégio de trocar, notei sempre uma compreensão sagaz dos limites da condição humana, e registrei com admirado respeito sua conformada aceitação do inevitável por vir. Andava já bem doente.

         Também eu conto encontrar morada definitiva em nosso ameno cemitério colinense, de preferência na Quadra 5, de carona no túmulo de meu avô Urbano Prado. Lá seremos novamente vizinhos, o Dito e eu. Sempre estranhei o endereço de nossa necrópole, Praça dos Direitos Humanos! Mas a denominação esdrúxula me leva agora a cogitar que o Dito, depois de cumprir dignamente a obrigação maior do homem – viver, lá se dedica ao exercício do direito humano supremo – o do repouso eterno.

         Gostava muito do Dito. Lamento imensamente sua morte e sou solidário com a família em sua perda irreparável.

Com respeito e afeto,


Sobre o autor, clique neste link: 

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