terça-feira, 22 de setembro de 2015

Colinenses nº 70 - crônica do Emb Renato Prado Guimarães


Mangava mata-cavalo

Estava sentado no sofá, oito horas da noite, falando ao telefone com filha minha, na Austrália. Sinto alguma coisa atrás. Vou verificar o que é, com a mão, e sinto uma massa estranha, grande, elástica, repulsiva. Não deu tempo nem de pensar no que era e a coisa mordeu, primeiro atrás, furando a roupa, depois um dedo. Doeu muito. Levantei-me e achei o bicho, negro, pernas longas e peludas. Botei ele num pote de plástico da cozinha.

A dor foi passando mas, preocupado com a possibilidade de que fosse bicho venenoso (aranha? Todo encolhido, o bicho parecia), resolvi ir ao Pronto Socorro, bem perto de casa. Já na fila, porém, um paciente olhou no pote e me tranquilizou: é uma mangava. Meio sem graça, abreviei meus trâmites no P.S., dando lugar a casos mais urgentes, e voltei para casa.

Lógico que primeira coisa que fiz foi procurar aprender, no dicionário e na Internet, que risco apresentava exatamente meu inimigo. A segunda coisa foi mandar um Whats’App para minha filha, a fim de tranquilizá-la, ela que acompanhara ao vivo, no telefone, o drama da picada, bradando “Tira uma foto! Tira uma foto!” (para depois saber se precisaria de antídoto e qual tomar). Sua resposta veio logo: tinha pena de mim, pois a mãe costumava dizer que a da mangava era a picada mais doída que havia sofrido em sua infância rural.

Fui dormir e acordamos bem e vivos na manhã seguinte – tanto eu como a mangava, ainda se mexendo no fundo do pote, tão persistente e vital que comecei até a sentir por ela uma ponta de admiração e respeito.

Mangava, mangaba, mangamgaba, mamangá, vespão, vespa-de-rodeio– a espécie comporta muitos nomes, no Brasil. Em Portugal também: abelhão, abugão, zangão, mata-cavalo (!).

Preocupado ante este intrigante equidicida, como todo colinense deve estar, pesquisei mais e no Houaiss o encontrei também dentre os regionalismos brasileiros, como variante do marimbondo-caçador, dentre muitas outras: “marimbondo-cavalo, marimbondo-feiticeiro, marimbondo-mata-cavalo, mata-cavalo, vespa-caçadora, vespa-de-cobra, vespão”.

Mata-cavalo! Meus amigos colinenses mais mordazes dirão que eu sou um superequino, uma vez que sobrevivi ao ataque assassino. Ou eu terei adquirido alguma imunidade, nascido que fui na Capital Nacional?

Aprendi que a mangava, ao contrário das abelhas, pode morder várias vezes, e que sua picada é mesmo considerada a mais dolorosa dentre as de nossos insetos – embora ninguém se tenha oferecido até agora como cobaia para prova comparativa. Seria contudo um ente dócil, que só ataca quando tocado. Mais ainda: em virtude de sua importância para a polinização de determinadas plantas, “é proibida sua perseguição, destruição, caça ou apanha” (Wikipedia).

Culpado, eu, pelo sequestro no pote? Em meu caso, entendo, sempre poderei alegar legítima defesa ante traiçoeiro ataque.


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