sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses nº 7 - Os sons de Colina - crônica do Emb. Renato Prado Guimarães



Os sons de Colina


                      Os amigos estranham e cobram: você só fala bem de Colina; será que não tem nada errado nesse pretenso paraíso? Você não vê nada ruim na cidade?
                      Ver, não vejo. Mas, a bem da verdade, ouvir, eu ouço.
                      E eu sou surdo!
                      Surdo de usar dois daqueles aparelhinhos de ouvir que não servem pra nada, embora custem os olhos da cara – os ouvidos também..
                      Não tenho nada contra os serviços de alto-falantes que irradiam mensagens de propaganda. Uma das minhas primeiras lembranças de Colina, eu a devo justamente a eles.
                     Na praça da matriz, havia um que tocava música durante os footing de sábados e domingos, e também servia de mensageiro do amor, transmitindo recados entre namorados, vocalizando propostas dos mais tímidos, um eficiente auxiliar de Cupido na cidade já romântica de então.
                    Eu tinha uma prima adolescente, muito bonita e namoradeira. Um dia, comigo sentado naquela ponta do banco da praça reservada aos moleques incômodos mas inevitáveis da família, ela e amigas chegadas veem com fingida indiferença passar os rapazes na volta da vez, acolhendo, soberbas, seus olhares-galanteios, como um preito inevitável a sua beleza, graça e juventude. De repente, os alto-falantes anunciam, enfáticos: “E agora uma música especialmente dedicada por Fulano de Tal a Sicrana de Tal”.
                    A Sicrana era a minha prima. O banco tenta aparentar indiferença, mas freme de emoção, as amigas impressionadas com a homenagem sonora por vir. E aí vem o alegado galanteio, nítido, sem nuances, chocante:
                   “Hipócrita, sencillamente hipócrita, te burlaste de mi....”
                   Os versos do bolero cubano deleitaram a praça, mas ninguém deu mostra disso. A vingança sentimental ficou sem recibo, mas não sem impacto, como da ponta do banco pude muito bem testemunhar, moleque incômodo mas precoce nessas coisas de menina e namoro. Logo apurei que a vingança fora mera e mesquinha expressão de despeito, de namorado preterido e inconformado. A prima era prenda rica e disputada - beleza querida e admirada na cidade.
                   Os serviços de alto-falante de agora veiculam outro tipo de mensagens. Nada contra elas, tampouco. Mas contra o volume... Este destoa do paraíso colinense; não creio que São Pedro o tolerasse em seus domínios celestiais – nem Adão, nem Eva no Éden. Nem a cobra da maçã, apesar de igualmente surda, segundo dizem, o poderia suportar, como eu.
                  O que fazer? Quem tem ideias?
                  O que os operadores dos alto-falantes e seus anunciantes talvez não percebam é que o volume de seus anúncios desperta, em muitos, ouvintes forçados, uma reação negativa com respeito à mensagem que transmitem, tornando a propaganda contraproducente: não comprar, de jeito nenhum, o produto ou o serviço, é a disposição que assumem, entre dentes, muitos dos machucados pelas balas sonoras de grosso calibre, medido em decibéis (é o meu caso).
                 A solução não estaria em medidas coibitivas, mas, talvez, numa assessoria acústica e de marketing aos operadores desses serviços, para que aprendessem em que volume e frequência sua mensagem pode ser mais bem recebida, sem incômodos indignados, em proveito de seus anunciantes e em consideração a seu público. Os entregadores de gás e água parecem ter alcançado dose tolerável, e melódica, ao menos para meus ouvidos diminuídos.
                 Altos volumes de som estilhaçam vidros e também derrubam muralhas. Lembrem-se das trombetas de Jericó! Vai que abalem os muros omnipresentes em Colina, que enclausuram as residências e sobre os quais ainda vou escrever alguma coisa, algum dia.
                 Colina, cidade murada? Por que?

SOBRE O AUTOR:

Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.

É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009.
Para contatos, usar o endereço de e-mail rpguimar@gmail.com



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