domingo, 18 de outubro de 2015

Colinenses nº 75 - crônica do Emb Renato Prado Guimarães



Pharmácia Sta. Izabel

Muito bonita e evocadora a série de fotos da Pharmacia Sta. Izabel que acaba de aparecer neste blogue. Mais um exercício primoroso e competente da Renata Paro, de singular valia para os contemporâneos e para a História. Não percam essa visita virtual que o blogue lhes está oferecendo, à Pharmácia e no tempo.
Para mim, as fotos têm mais que valor estético e documental: elas afetam sentimentos profundos, atávicos – lembram-me o passado mesmo de antes de eu existir.
Nasci na Sta. Izabel, na casa atrás, em que moravam meu avô Urbano Prado e minha vó Cotinha (apelido carinhoso para nome fidalgo e sonoro: Maria Franco da Silva Prado). Ele era o dono da farmácia, depois de deixar as funções de Administrador da Fazenda São Joaquim1 e a posição, em dois mandatos intercalados, de Prefeito do Município de Colina. Vi as luzes em 1938, assistido pelas mãos competentes e afetuosas do Doutor Alcides, que também estaria à cabeceira de vô Urbano quando a luzes lhe faltaram, precocemente, a 24 de dezembro de 1942.
Nunca morei em Colina, antes , como explicado nas crônicas inaugurais desta série2. Mas aqui vim em sucessivas férias, passadas na casa de minha avó (já viúva) Cotinha, ou na da tia Wanda Prado, esposa do Antonio Olintho Nogueira, dono do Cartório (grande praça, lembram-se dele?). Mais tarde cultivei meus laços com o lugar do nascimento toda vez que viajava de Brasília para São Paulo (ou na volta), nos períodos de serviço no Brasil. Parava em Colina a fim de 1) visitar o túmulo do vô Urbano na Quadra 5 de nosso ameno cemitério, onde um dia espero ter guarida; 2) tentar reviver o passado, mirando, da altura do Coreto, os caminhos ingênuos da Praça da Matriz, quando eu fazia “footing” e admirava, na direção oposta, embora bem-vinda, belezas inesquecíveis – e inesquecidas3; e 3) tentar convencer o Fiori a vender-me as estantes da Sta. Isabel.
As estantes da Pharmácia Sta. Isabel!
Dentre as poucas coisa que me envaidecem na vida, está o fato de ter sido dos primeiros, acho, a botar reparo sério e atento nelas. Desenho acurado, harmônico e de bom-gosto, nas madeiras e nos vidros, feitura inspirada, artesãos provincianos mas magistrais em seu ofício, conscientes do belo e do funcional. Um conjunto soberbo, amostra de uma época, exemplo para seu futuro. Peças que sempre presumi que merecia possuir, até por direito de sangue, uma vez que as supunha concebidas e mandadas fazer por meu avô Urbano. Só agora me dou conta de que são ainda mais antigas, obra do proprietário anterior e fundador primeiro da pranteada instituição, o Fuzinato Bertazzi. Nem por isso, contudo, me arrependo do esforço, embora vão, de adquiri-las e preservá-las.
O Fiori sempre se recusou, até bruscamente, a conversar a respeito. Quando morreu, sua família me contatou em Frankfurt, por via da Prefeitura, oferecendo os móveis. Tive de renunciar a eles. Na Alemanha teria dinheiro para comprá-los, mas não espaço para abrigá-los, e o custo do transporte seria exorbitante. Quando voltei a Colina, nem toquei no assunto com o Paulinho Frigoni: aqui tenho o espaço, mas não mais o dinheiro.
Não importa. As estantes já estão preservadas. Nas fotos da Renata, e de outros (até minhas), e na espécie, graças aos cuidados atentos e louváveis do Fiori e de seu atual proprietário, e igualmente porque, informalmente “tombados” pela voz pública e consensual, já pertencem ao patrimônio histórico e cultural da cidade e terão de sobreviver, necessária e institucionalmente, a seus admiradores contemporâneos.
Onde?

1 Ainda íntegra, a maior propriedade da região na época. Como igualmente fôra, anos antes, a Mandaguari, já pros lados de Jaborandi, onde meu outro avô, o paterno, Orestes Guimarães, também havia sido gestor, por conta do Cel. Luciano Nogueira e seus filhos. Tanta terra!, Mas para mim não sobrou nada. Eram gerentes, não proprietários, meus avós. Do pouco que puderam comprar e formar, para si e suas famílias, só guardo a lembrança de raras visitas na infância – o varandão precário, de piso em parte apodrecido, da chácara (creio que hoje a “do Furquim”) em Bebedouro, o portal estranhamente chamativo da modesta “Fazenda Palestina”, em Mirandópolis, adiante de Araçatuba. Depois de um tempo nas mãos de meu tio Paulo Prado (“Nenzico”), a Sta. Izabel foi vendida pelos herdeiros de Urbano e coube ao Fiori administrá-la pelos lustros subsequentes, até a morte.

2 Colinenses nº 1, “Vou-me embora pra Colina”, depois desdobradas em três: 1a. Vou-me embora pra Colina; 1b. Viver a tarde; e 1c. Colina paraíso; e também Colinenses n° 2 – Volta sem ida.



3 Do “footing” na praça já se falou na Colinenses nº 7, Sons de Colina. Também meu pai, Mario Mazzei Guimarães, tem neste blogue texto sobre os costumes de Colina no qual o descreve, ao “footing”, em pormenor e até com certas indiscrições sobre o comportamento na praça. Coisas do tempo dele, não do meu...