sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses nº 64 - O santo maçom - Crônica do Emb Renato Prado Guimarães



                     Por que escrever, eu, ademais? Já está escrito, e por pena muito mais competente - a de meu recém-falecido pai, no ainda inédito “Notícia do Mundo”. 
                     Santo milagreiro, sim, e maçom, em Jaboticabal. 
                    
                     Leiam: 

                     O tio Rafael Picerni, o querido da mãe do menino, fugiu
                     da febre amarela que deu em Jaboticabal, no fim do 
                     século XIX, carregando a mulher para São Paulo e 
                     voltando para liquidar os negócios e depois  asilar-se. 
                     Mas a moléstia o pegou no intervalo interiorano e ele fez
                     parte da montoeira de gente moribunda, ou assim 
                     classificada, que as carroças municipais transportavam e
                     jogavam num depósito pegado ao cemitério. Medida para
                     isolar e facilitar os enterros. E o tio tão bom morreu só, e
                    dizem que até foi enterrado ainda vivo, apesar de  chefe 
                    de partido no lugar, carta patente de tenente-coronel da
                    Guarda Nacional e mestre na maçonaria jaboticabalense.
                    Era líder de fama até em Bebedouro, onde uma vez o 
                    coronel Manoel Antônio, já então dando as cartas, lhe 
                    ofereceu um banquete, sempre lembrado pela mãe do 
                    menino. Acontece, porém, que a vovó Clara acordou 
                    exaltada uma noite, bom tempo depois, em Bebedouro, 
                    sacudindo o marido:

                  - Sonhei com o Rafael, todo queixoso, que enterraram ele
                    vivo e ninguém da família aparecia para zelar do seu 
                    túmulo, todo afundado no mato e com grandes 
                    rachaduras.

                     No dia seguinte, ela bateu pela Paulista para Jaboticabal 
                     e foi ao cemitério velho, abandonado, pelo medo do 
                     contágio, mais psicológico do que físico. As informações 
                     do sonho conferiram. Mandou limpar o lugar, fechar as 
                     rachaduras, acender velas, rezou muitos terços, 
                     formando vários rosários, e  chorou a valer. Era o seu 
                     irmão predileto.

                   Verdade ou não, o fato é que muito mais tarde, lá pelas 
                     bandas de 30/40, o nome de Rafael já deslembrado em 
                     Jaboticabal, um rapaz da cidade, que nunca ouvira falar 
                     dele mais gordo, teve o mesmo sonho que a vovó Clara,
                     com as adaptações de pessoa. Falou com o pai assustado, 
                     o velho era maçom e ruminou:

                  - Se era importante, devia de ser maçom.

                   Fuçou os arquivos e lá achou o nome de Rafael, com o
                     sobrenome certo e as importâncias que teve. Chamou 
                     colegas da Maçonaria, reuniram-se, foram ao local e 
                     deram com o túmulo, ainda ostentando a placa de 
                     tenente-coronel, posta em homenagem de saudade pelos 
                     irmãos. Mas trincado, sujo, num matagal do velho 
                     cemitério largado. Limparam tudo, estudaram o caso e 
                     ficaram sabendo do destaque de Rafael nos fins do Século
                     XIX, sobretudo no terreno político e filantrópico. 
                    Removeram os restos mortais do lugar, limparam o 
                    cemitério velho, ergueram outro túmulo em ponto 
                    próximo, construíram uma capela por cima (muitos 
                    maçons eram também católicos, e se não fossem, as 
                    mulheres, que eram, obrigariam), e da velha catacumba 
                    só ficou na moderna a saudação fúnebre dos irmãos.

                    Pois a notícia transpirou, a Maçonaria mandou fazer um 
                    galpão perto para as suas reuniões mais solenes e menos
                    secretas, e os católicos das redondezas começaram a 
                    fazer romarias no aniversário da morte-viva do tio 
                    Rafael. O menino, feito homem, andou por lá duas vezes 
                    e verificou o movimento: havia muletas, reprodução de
                    braços e outras bugigangas lembrando milagres 
                    alcançados. A notícia espalhara-se mundo além, e o tio 
                    virara um santo. Naturalmente havia gente explorando a
                    legenda, e disso parece que nem escaparam alguns Picerni 
                    remanescentes na área. O fato é que desce até gente de
                    Minas, no dia sagrado, para fazer ou pagar promessa; e, 
                    como se sabe, no que mineiro fia ninguém desconfia...”

                    Isso aí foi escrito no fim dos anos 1980. Da segunda vez que meu pai foi, sei lá quando, fui eu quem o levei; também vi o relicário dos milagres.  Como estará hoje? O que me incomoda mais na estória, como a meu pai,  é os mesmos sonhos, minuciosamente iguais, com nome do morto e tudo,  em épocas tão distantes e de pessoas distintas, sem qualquer ligação ou conhecimento mútuo. 

                   Tio santo... 

                   Ainda vou lá ver de novo, em Jaboticabal. O Napoleão Jorge II já me prometeu ajudar com a Maçonaria jaboticalense, parece que a de mais antigas tradições  na região, a fim de que eu possa pesquisar e saber mais a respeito desse antepassado venerável. 

                   Posso até pedir um milagre, do que ando precisado. Rabiscador de papel, quem sabe possa retribuir com uma hagiografia. 

                   Vida de santo maçom? Ora, por que não? Afinal, não foi o próprio Imperador das Quatro Coroas, D. Pedro I (Grão Mestre, conhecido nas Lojas como Guatimozim), quem compôs letra e música do Hino da Maçonaria brasileira, embora os Andradas a suspeitassem de tramar a sublevação republicana, em nome do Grande Arquiteto? 

                   Maçons alerta,
                   Tende firmeza,
                   Vingai direitos
                   Da natureza

                   Do mundo o Grande Arquiteto
                   Que o mesmo mundo alumia
                   Propício, protege, ampara
                   A pura Maçonaria.

                  Só faço citar, de nosso Monarca inaugural; não é o caso de endossá-lo, pelo menos nisso. 

SOBRE O AUTOR:

Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.


É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009

Para contatos, usar o endereço de e-mail rpguimar@gmail.com
Aberto às suas opiniões, sugestões, etc...

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