sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses nº 46 - A queda de Gibraltar - crônica do Emb. Renato Prado Guimarães



A queda de Gibraltar
Fomos, um alentado grupo de ciclistas, visitar Gibraltar, a partir do hotel em que estávamos hospedados, em Alcaidesa, na Andalucía – bem perto de Sotogrande, o muito chique centro hípico e de polo espanhol, assaz conhecido dos cavaleiros colinenses. Bem uns 20/30   km de ida e volta.
Chegamos à “pedra” de Gibraltar (“The Rock”) por volta das 11 horas da manhã, depois de perdermos algum tempo no sinal luminoso que controla, com rigor e pontualidade, o trãnsito de automóveis, motos, ciclistas e pedestres em sua passagem  sobre a pista única do aeroporto que serve ao enclave inglês. Vimos uns quatro aviões de passageiros baixarem e decolarem, literalmente em nossas fuças, enquanto o sinal estava vermelho – para nós. Um belo espetáculo, o do cruzamento de aviões e veículos de superfície – e deveras mais segura, a singular encruzilhada ar-terra, do que o banal cruzamento da Sete, de carro e bicicleta... 
Ninguém me convidou para subir a “pedra” (450 metros) na bicicleta alugada, e visitar as fortificações criadas pela engenharia militar inglesa no correr dos séculos de resistência aos empenhados esforços dos espanhóis para recuperarem aquele ponto minúsculo, mas altamente estratégico, de seu território - 7 km quadrados na boca do Mediterrâneo, perdidos no comecinho do Século XVIII, pelas armas e depois pela diplomacia, no Tratado de Utrecht. Meio desapontado, tive que compartilhar uns capuccinos medíocres com os colegas de excursão, num “pub” inglês sem graça, trivial, ao nível do mar – eu que aspirava às alturas da rocha inexpugnável. 
Na volta, topamos com um jardim ao longo da praia, dividido em canteiros pela própria e ali sinuosa via ciclística – desenho de algum prefeito com pretensões a artista, e, talvez, dono ganancioso de clínica ortopédica.  Todo mundo brecou, mas só eu voei, em capotagem espetacular. A meio giro da virada de 180 graus verticais,  consegui me livrar da bicicleta, que  completou a volta sozinha, enquanto eu aterrissava no  chão calçado de ásperos paralelepípedos, entre os canteiros. Deve ter sido mesmo espetacular, pois veio todo mundo acudir, minha mulher médica e o guia espanhol à frente. Examinaram cada osso de meu corpo; ao não encontrar fratura, o cretino do guia observou: “Que belleza! El logró caer muy bien, una perfección de caída. Es luchador de judo?”.
Só faltou pedir para eu repetir, o imbecil.
Também já disse em algum lugar destas Colinenses que sei cair bem; aprendi com a vida. Na verdade, não caí tão bem assim. No hotel minha mulher descobriu hematomas extensos nas pernas e, semanas depois, uma radiografia revelou fratura no dedão do pé direito, bem inchado desde a queda. A médica atenta e esposa afetuosa temia alguma trombose nas pernas inflamadas. 
Pois é. O orgulhoso lema de Gibraltar é Nulli Expugnabilis Hosti (“Nenhum inimigo me conquistará”). Gibraltar nunca caiu, mas eu, sim, caí lá.
A queda da Gibraltar invencível...

SOBRE O AUTOR:


Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.

É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009.


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