sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses nº 54 - Japonês preguiçoso - crônica do Emb Renato Prado Guimarães


Japonês preguiçoso

                Brasileiro de passagem pela Europa, ou pelo Japão, vem muitas vezes com aquela queixa auto-preconceituosa: se nosso povo trabalhasse como o daqui, o Brasil seria muito melhor. Reuni todo um arsenal de argumentos para combater esse clichê desprimoroso, gerado por nossa própria insegurança mal informada, de nação ainda adolescente.
               Um visitante começa naquela linha lamuriosa, tão brasileira. Rápido o interrompo, impaciente: não é uma questão de trabalhar mais ou menos, tudo depende é da forma do trabalho, de sua continuidade, de sua adequação ao fim em vista, de seu tempo e ritmo - de sua organização, em resumo. O brasileiro é um grande trabalhador; o que falta é mais consciência e consistência, melhor eficiência e resultado em seu trabalho.
              Nem havia chegado às armas favoritas de meu arsenal, e o visitante se admite convencido. Sua avaliação fora precipitada. Mais, em detrimento de sua própria tese inicial, conta-me uma estória simples mas poderosa, que ilustra e empalidece todos os meus argumentos anteriores:
              Fiscal rural do Banco do Brasil, em outros tempos, meu visitante acompanha em minúcia a evolução das plantações em sua região, próxima a Colina. Chama sua atenção o contraste entre dois cafezais vizinhos, de pequenos sitiantes, um nissei, o outro brasileiro. O cafezal nipônico está permanentemente limpo, o solo descoberto, os cafeeiros crescendo, viçosos, sem competição das gramíneas vorazes; o do brasileiro, tomado pelo mato, alto, concorrendo com a rubiácea, ainda assim florindo e produzindo, mas a meias, peada.
              Um dia, comenta o contraste com o nissei e enaltece as virtudes de seu trabalho. Para sua surpresa, o sitiante salta em defesa do vizinho: “Trabalhar, eu? Quem trabalha é o brasileiro. Japonês, não! Japonês é muito preguiçoso, né?”.
              Explica: “Só gostando muito de trabalhar para deixar o capim crescer assim. Olha o trabalhão que vai dar: capinar tudo isso, já alto e forte, raízes fincadas no chão, e depois ainda ter de carregar para algum lugar. Isso é para brasileiro, que é trabalhador. Japonês não pega no pesado não!”
              E arremata, mordaz: “Japonês vê um verdinho nascendo, vai lá e cata, ou manda os meninos catar. Vem outro, ele cata, vai catando fácil, fácil, sem força, a folha ainda tenrinha, despegando da terra. Pra que esperar crescer e ter mais trabalho depois? Japonês não gosta de trabalhar, não. Isso é coisa pra brasileiro”.
             Coisa rara: japonês preguiçoso!
             E gozador...


SOBRE O AUTOR:


Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.


É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009
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