sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses nº 39 - Cadê o decibelímetro? - Crônica do Emb. Renato Prado Guimarães



Cadê o decibelímetro?

                      Distraído, percorro de carro a 7 de setembro, vidros  abertos, ouvindo uma música favorita em gravação há muito esquecida no iPhone, singularmente  brilhante e sonora. À altura do Banco do  Brasil, a música se aproxima de passagem de minha particular predileção. Estiro a mão para aumentar o volume – mas aí me ocorreu que o som alto poderia perturbar os passantes.
                     De qualquer maneira, qualquer que fosse o volume de meu som, não poderia ouvir mais nada, pois atrás de meu carro postou-se, inclemente, um daqueles cacofônicos arautos que perturbam nossas ruas.  Fecho os vidros e deixo-o passar, com civilidade.
                    Mas aí me vem um surto de ira cívica, de cidadania indignada e machucada.   Por que nem no carro eu posso ouvir música e este povo está a martelar nossos ouvidos todo o tempo, sem qualquer escrúpulo, sem qualquer respeito pelos concidadãos, sem qualquer controle?
                    Cadê o decibelímetro?
                    À falta do aparelho redentor, entrego-me ao devaneio, entretendo fantasias sobre como reparar minha cidadania acusticamente castigada. Lembrei-me logo daqueles fones de ouvido da Bose, que  permitem escutar o que você quer, vindo da fonte de MP3, e ao mesmo tempo repelem as ondas sonoras indesejadas, contra elas emitindo ondas adversas, na mesma frequência em que tentam alcançar o ouvido da gente.  Fantasiei desenvolver um mega “noise canceller”, que anulasse todo som despropositado, de onde viesse.
                    Para o caso de meu mega-repelente não ser viável, contudo, concebi logo uma alternativa mais prática, embora meio conflituosa. Amigos meus, que mexem com música em São Paulo, me asseguram de que nos ferro-velhos eletrônicos da Santa Ifigênia, em São Paulo,  conseguem montar um equipamento de som a custo baixíssimo, compacto e com potência de fazer medo até a trio elétrico bahiano. Dá pra pôr, junto com as baterias de caminhão, num desses carrinhos de reboque, que qualquer carro pode puxar. Imaginei o prazer de  esperar na esquina pela primeira daquelas abominações tonitruantes, e seguir atrás, em seu hórrido vácuo,  tocando minha própria música em volume mais alto, de maneira a abafar a mensagem extravagante. E assim repetir, perseguindo sem trégua os demais terroristas sonoros, enquanto persistirem os decibéis agressivos, de nossos ouvidos e de nossos direitos de cidadão, ambos inalienáveis.
                  Similia similibus curantur. A máxima da homeopatia: o semelhante pelo semelhante se cura.
                  Que música vou tocar? Ora, o Hino Nacional, quem sabe naquela versão triunfal, sinfônica, do Gotschalk, especialmente ruidosa na interpretação da Royal Philarmonic, de Londres, Cristina Ortiz ao piano.  Quero ver quem é que se atreve a pedir para eu abaixar o volume, desligar o magno símbolo pátrio! Pra variar, toco o Hino da Independência, o Hino à Bandeira, o Hino de Colina – música muito boa.  Tudo o que possa divulgar um pouco de civismo, aprimorando a cultura.
                  Cadê o decibelímetro?
                  O pessoal do Rotary Clube quer que eu faça umas palestras sobre temas nacionais e internacionais. Vou começar com uma sobre o Hino, sua história, suas versões e a hipótese muito cogitada de que seja plágio.  Palestra que foi sucesso em várias plagas, aqui no Brasil e além.  Aí talvez já faça os testes-piloto de  meu mega–super-hiper-ultra-superior-giga-gigantic equipamento ambulante de defesa acústica, made in Santa Ifigênia e capaz de estourar qualquer decibelimetro tardio, se porventura ainda ousar aparecer nas redondezas.
                  Só tenho pena do pessoal de Jaborandi. Não tem nada com a história e vai ter de ouvir, e penar, como nós ...
                  Devaneios do desespero? Se alguém tem ideia melhor, menos fantástica, estou pronto para considerar. Na verdade, eu também tenho alternativas  mais sensatas, na base da homeopatia pura e simples. Preciso é de aliados, com chapa de Colina.
                 Sou todo ouvidos. Enquanto eles escutem.

                 P.S. – O assunto do insuportável terrorismo acústico em Colina já foi tema das Colinenses no.  7 e 17. Cadê o decibelímetro?


SOBRE O AUTOR:

Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.
É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009.


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