sexta-feira, 20 de maio de 2011

Vou-me embora pra Colina! 1 - A nova versão da crônica inaugural Vou-me embora pra Colina, se desdobra em três crônicas


A nova versão da crônica inaugural Vou-me embora pra Colina, se desdobra em três crônicas

Vou-me embora pra Colina!1

                      Meus amigos,

                      Muito obrigado, Cézar, por suas palavras tão bondosas. Muito obrigado por ter convidado tantos amigos para este momento aqui no Consulado. Muito obrigado pela placa. Afinal, os únicos emplacados desta sala eram o Manuel Backenholer e o Paulo motorista, contemplados, ambos, por merecido agradecimento naquela plaquette ali junto ao painel do Rugendas, que eles ajudaram a instalar. Eu não os supero em prestígio, agora, mas ao menos empato.

                      Eu sempre achei elogio uma coisa equívoca, redundante. Elogio é aquilo que você diz de alguém e que ele já acha que é, desde sempre. Mas o César foi tão expressivo, tão veemente em suas palavras, que até me vejo tentado a acreditar no que ele disse. Não poderia, aliás, discordar, pois seria muito indelicado desmentir em público tão bom colega e amigo. Seria como naquela estória do Nelson Rodrigues, do beque que corre atrás do juiz, protestando e contestando, inconformado, aos gritos: Mas foi pênalti Senhor Juiz, foi pênalti. Eu fiz o pênalti! Imaginou eu interromper o César, berrando: Mentiroso, farsante! Você está mentindo!

                      Temo que este momento esteja adquirindo jeito de despedida. Quem sabe vocês estejam me despedindo, na esperança de se ver livre de mim. Mas eu não estou me despedindo. Eu só admito dizer-lhes um até logo, recorrendo ao clichê refrão nessas conjunturas de separação.

                      O poeta foi-se embora para Pasárgada, o Caymmi foi pra Maracangalha. Eu vou pra Colina.

                      Em São Paulo me perguntam: onde é que você foi encontrar coragem para ir morar numa cidadezinha minúscula, você que viveu tantos anos em grandes metrópoles? Minha resposta é contundente: encontrei coragem em minha covardia. É preciso ser muito valente para enfrentar a tortura diária de morar na Capital, São Paulo – e seus custos, na minha avaliação o dobro de Frankfurt, a segunda cidade mais cara da Europa. A Antonia, hoteleira, não vai gostar de saber que a diária do melhor hotel de Colina custa 40 reais. Sem ar condicionado, claro. Com ar condicionado, é... 50 reais. Eu sempre invejei umas botas marrons do Hans Apostel, acho que italianas, ou quem sabe inglesas, da Church’s. Entrei numa portinha de sapateiro na rua Sete, para consertar um tênis de couro, vi um par parecido ao do Hans em exibição, me interessei mas o sapateiro disse que não tinha em estoque. Podia, no entanto fazer sob medida, para entregar em dois dias. Preço? 70 reais. Encomendei e eis aqui a maravilha, da qual muito me orgulho. Só que depois se enganou, o danado: na hora de pagar pediu mais do que o combinado: 80 reais! Encantado com a compra, nem discuti o preço. No que fiz mal, pois devo ter dado a ideia na cidade de um abastado forasteiro, que não se importa com dinheiro. Recebi outro dia um orçamento salgado para a pintura da casa que comprei, a ponto de haver decidido pintar eu mesmo, a casa, com vagar e carinho. Vai ser uma advertência sutil, um tapa com luva de pelica nos prestadores de serviço locais. Não sei é se a luva vai entrar em minhas mãos quando eu acabar o serviço...

                      Voltando aos pés e às botas: veja-as aqui, pois eu as estou calçando (não as tiro dos pés), e se admirem com seu estilo, ao mesmo tempo roceiro autêntico e de refinamento cosmopolita, pasmem ante a qualidade do couro e do acabamento. Por sinal, encomendei outro par para meu enteado, o Leon, e já sugeri ao sapateiro assinar sua obra insigne na sola, marcando espaço no mercado europeu: Fernando Paçoca, Made in Colina... Mas não contem a respeito ao Hans Apostel, que ele vai querer comprar também...

                      Ainda com relação a preços. Minha (nossa!) casa tem 469 metros quadrados de boa construção, terreno de 700, 4 quartos, sendo 2 suites, imenso salão de estar, sala de jantar, sala de TV, piscina, sauna, churrasqueira, aquecimento da água por painéis solares e nem sei mais o quê, e me custou preço pelo qual não pude comprar um apartamento de quarto e sala na Aclimação, em São Paulo. E para os padrões de Colina, o preço foi alto. Eu falo das maravilhas de minha (nossa) casa não por gabolice tola, mas para efeito de comparação de preços com São Paulo e como merchandising - propaganda em alento de minha esperança de tê-los lá, comigo, um dia.

                     A família me pergunta, preocupada: sua saúde, quem vai cuidar dela? Isso me preocupa, pois vou deixar de contar com a assistência perene, solidária e salvadora da médica atenta e competentíssima que é Bettina. Mas logo respondo: três centros médicos universitários de relevância estão perto, Ribeirão Preto a uma hora, Rio Preto igual, Uberaba a hora e vinte. Campinas está a 3 horas, São Paulo a 4, Barretos, que é referência nacional para certas especialidades, está a 15 minutos. Além disso, em Colina, no mesmo quarteirão, em frente, moram dois excelentes médicos, o pronto-socorro está a 100 metros, o Hospital da cidade a 150.

                     Se isso não bastasse, a 800 metros está o Cemitério. Dá pra ir a pé.

                     Por sinal, durante conversa com compatriota colinense sobre o carro que deveria comprar, para usar em Colina, ele observou que certa marca desvalorizava muito, e depressa. Eu retorqui que não estava pensando em valor de revenda, estava querendo um carro para sempre, pra viver e morrer com ele. Aí ele retrucou, com graça macabra: então é melhor você, em lugar de escolher modelo sedã, comprar logo um hatchback, daquelas semi-peruas com o espaço apropriado atrás...

                     Colina tem 17 mil habitantes, muito bem cuidada, com lago e jardins, totalmente arborizada, totalmente asfaltada e saneada, com água que se pode beber da torneira, avenidas largas que se dão ao luxo de ter palmeiras imperiais nas ilhas de separação. A única queixa que ouvi, com respeito ao trânsito em Colina, é a de que as monárquicas palmeiras formam renques tão cerrados que os motoristas têm dificuldade para ver quem vem pela outra pista...

                     Não tem universidade mas a Prefeitura dispõe de uma frota de ônibus para levar e trazer diariamente seus estudantes às cidades vizinhas, diversas viagens por dia, de ida e de volta. Lá nasceu e vive o escritor mais lido do Brasil – que não sou eu, mas sim o Augusto Cury, que no Brasil bate até o Paulo Coelho, que é mais pro público internacional. Berço do Augusto, e meu, e também do cavalo mangalarga paulista e do time de polo que foi o primeiro conjunto brasileiro a conseguir bater os imbatíveis argentinos. Por tudo isso é conhecida como a Capital Nacional do Cavalo. (Excluam-se desse “tudo isso”, claro, o Augusto e eu, que nada temos de equino). Não, não pretendo começar a jogar polo ou praticar hipismo. Em volta da cidade há diversos centros universitários importantes. Quero ver se me enturmo lá e viro professor, coordenador de cursos, palestrante, o que seja que possa render um dinheirinho.

                    Em algum lugar escrevi que o exílio que o diplomata mais deve temer não é o da vida toda, longe da Pátria, a seu serviço, mas sim, ao voltar, o desterro na própria terra, amputado de suas origens. Eu volto às origens, volto a Colina com um sentimento deveras estranho – o sentimento de que dela nunca saí. Isso se chama... raízes.


1 Palavras do autor em evento no dia 8 de maio de 2.012, no Consulado Geral do Brasil em Frankfurt, desdobradas nesta crônica e nas duas seguintes. 

SOBRE O AUTOR:


Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.


É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009

Para contatos, usar o endereço de e-mail rpguimar@gmail.com
Aberto às suas opiniões, sugestões, etc...

para saber mais sobre o autor, por favor, acesse o link:
http://colinaspaulo.blogspot.com.br/2012/04/renato-prato-guimaraes-autor-colinense.html