sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses nº 55 - Japonês burro? - crônica do Emb Renato Prado Guimarães


Japonês burro?

                     Na hora de pagar, a caixa na loja colinense me pergunta, cortesmente: “Muita saudade do Japão?” Me surpreendo: como ela sabe quem eu sou e que trabalhei no Japão? Diante de meu espanto, ela explica: Eu morei no Japão dois anos. Mais surpresa: a moça não tinha qualquer traço oriental. Discreto, não perguntei a respeito, mas imaginei que seria esposa de algum nissei ou sansei, com direito a visto de trabalho nas fábricas nipônicas (depois soube que ela própria é sansei). Ela me precisou o lugar onde trabalhara, como operária, cidade que não era de minha jurisdição, como Cônsul em Tóquio, mas sim da alçada do Consulado em Nagóia. 
                 Nem perguntei como a moça me reconhecera; deve ser culpa do “O Colinense”, leitura universal na cidade e que andou publicando coisa sobre mim. Mas sua inteligência viva e educação impecável me lembraram, em nossa breve conversa, episódio inesperado de minha experiência japonesa:
                Entrevista com o Secretário da Cultura da Prefeitura de cidade do interior, com alta densidade de brasileiros, nissei e sansei. No fio da conversa, difícil pela necessidade do intérprete, meu interlocutor faz uma observação surpreendente: “Porque o brasileiro é mais inteligente que o japonês?”
                Pergunto ao intérprete se havia entendido direito. Ele responde que sim; o Secretário se referia aos operários nas fábricas da região. Ante meu patente espanto, a autoridade japonesa acrescenta: “Nós observamos muito, nas linhas de montagem. Os brasileiros que trabalham lá são mais motivados, ágeis e rápidos do que nossos compatriotas. Aprendem depressa, entendem logo os mecanismos e procedimentos, que muitas vezes modificam, melhorando o rendimento. Na comparação, nossa gente só trabalha - são como autômatos, sem vontade, apáticos”.
                 Até meio constrangido pelo elogio imprevisto, tive que tomar a defesa da inteligência do japonês. Não é bem assim. O que se vê nas fábricas pode até ser verdade, mas é preciso considerar que o brasileiro que lá está tem nível de educação mais alto do que seus companheiros japoneses. Os decasségui quase sempre têm secundário completo no Brasil, são estudantes pré-universitários, muitos se graduaram nas universidades brasileiras, há professores entre eles, inúmeros se formaram em escolas técnicas, o nível médio da educação formal é elevado. Eles estão na fábrica porque não têm opção, pois falta emprego no Brasil e aqui não são aceitos pelo que na verdade são, como engenheiros, advogados, executivos, agrônomos, técnicos, universitários, mecânicos de alta qualificação. Os japoneses que vão para a fábrica, vão também por não terem opção melhor, mas isso porque seu nível de educação e treinamento é inferior, não conseguem ter acesso a escalões mais altos na hierarquia laboral e salarial da sociedade japonesa.
                Ademais, os brasileiros têm a motivação de ganhar dinheiro e ainda subir na escala profissional e social, no Japão ou de volta ao Brasil. Os operários japoneses parecem conformados com seu destino modesto, acomodados em suas redes de proteção à saúde e previdenciária, sem as ambições e fantasias que os brasileiros ainda se atrevem a alimentar.
                Para nós a esperança não morre, no Brasil ou no Japão. E a esperança, tal como a necessidade, é parte inseparável da condição do decasségui, do emigrante, do descendente.
               Japonês burro? Estou para ver.
               Vale o esclarecimento: Decasségui eram os que foram no começo, geralmente só homens, para trabalhar por um período e depois voltar à Pátria; seriam como nossos “safristas” de antigamente, ou, mais recentes, os “boias-frias”. Emigrante é o que se instala no Japão, com família, mulher e filhos. Descendente é como um eufemismo para definir o nissei (filho), o sansei (neto), o yonsei (também chamado “nãosei”, jocosamente – a quarta geração, quando os traços da origem estão esmaecidos a ponto de não se ter mais certeza dela).
                Colega meu, João Pedro Costa, escreveu tese interessantíssima sobre a evolução do decasségui para o emigrante na migração ainda circular (vai-e-vem) Brasil/Japão. Já foi publicada em livro.
                O que precede me lembra aquela regra informal (“rule of the thumb”) dos americanos: nas filas de supermercado, se estiver com pressa, escolha sempre a do caixa de imigração mais recente.
                Dá certo, invariavelmente!


SOBRE O AUTOR:

Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.


É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009

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