sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses nº 35 - Pauliceia condenada - Crônica do Emb. Renato Prado Guimarães


Pauliceia condenada


                    Uma crônica arrependida, esta aí de cima, reproduzida do blogue em Frankfurt. Foi viver duas semanas mais em São Paulo, Capital,  para perder as esperanças; não dá mais. Em minhas despedidas da Alemanha, aos que me perguntavam onde tinha encontrado coragem, eu,  acostumado a grandes metrópoles, para vir  morar numa minúscula cidade de interior,  achei muito natural  dizer: encontrei coragem em minha covardia (Colinenses no. 1). 
                    Covardia sincera, medo de morar em São Paulo, de enfrentar seus problemas, de poluição, de trânsito, de segurança, de custos (São Paulo é bem mais cara que Frankfurt, a segunda cidade mais cara de toda a Europa). Vou visitar meus pais (98 e 96 anos) na Casa de Repouso em que se encontram, em Santo Amaro: da Aclimação, bairro central, tensas 1,15 horas para ir, aniquiladoras 2, 35 horas para voltar!  Isso de carro; de bicicleta seria mais rápido, mas cadê a coragem? Os amigos, logo noto, vivem enfeudados:  onde dê para ir a pé ao e do  trabalho, escola no mesmo quarteirão, cinema pertinho (nem por próximo, eles vão), restaurantes a mão (ou a pé), shopping (indispensável), a distância curta e segura. As famílias raramente se visitam; ocasionalmente trocam telefonemas. Muitos vivem assim, coibidos, e na perene ansiedade da espera pelo  feriadão, para deixar a morada-prisão em busca de relaxamento. E aí caem noutro cárcere – o do congestionamento, também nas estradas. Os grandes atrativos da cidade grande, museus, teatros, sala de concertos, vida noturna? Ah, é tão difícil ir... E tão arriscado... O trânsito multiplica a distância, a insegurança faz das casas menos amenas residências  do que redutos irredutíveis. (Segundo o Houaiss, Reduto é “obra fortificada no interior de outra, com a finalidade de servir para a última resistência”. A que ponto chegou minha São Paulo!)
                        Resultado é que morar na imensa São Paulo pode ser morar circunscrito numa área urbana mínima – quiçá menor do que Colina!
                       Daí se infere que, morando na pequenina Colina, posso estar morando, efetivamente, numa cidade para mim mais ampla do que São Paulo!
                      Pauliceia alucinada, condenada! O esteta Mario de Andrade jamais cogitaria de  um tal desvario urbano quando escreveu sua seminal “Pauliceia Desvairada”, nos anos 1920. 
                     Na amplidão de suas ruas e na liberdade de seu convívio, encontro no interior  o à vontade que já não se  pode encontrar na Capítal. A cidade cresce, sim, horizontal e vertical, para a periferia e para os céus, basta ver os anúncios de páginas inteiras de caríssimos apartamentos, condomínios, conjuntos habitacionais  em todo lugar. Mas essa vitalidade especulativa é enganosa, ou mesmo, ao cabo, autodestrutiva, suicida: quanto mais a urbe cresce, mais problemas cria, ou mais dificuldade gera para a solução dos problemas já antes  existentes. 
                    Fosse eu político, do interior ou da Capital, meu tema de campanha seria: em vez de investir mais numa causa perdida, condenada, melhor maneira de ajudar São Paulo, em seu expansivo, luxurioso, desvairado caminho para o abismo, é investir no interior!
                      Mas interior mesmo, não nessa área periférica, inchaço enfermiço da Capital, onde se  vão gerando simulacros suburbanos mal planejados, de vocação equívoca  e destino incerto. Nem nessas cidades mais próximas, e já congestionadas, como Campinas, Jundiaí, Santos, Sorocaba, até, mais longe, Araçatuba, Ribeirão e Rio Preto, Prudente, onde o modelo maligno da Capital parece estar vingando.  Em alguma parte destas Colinenses já falei do processo perverso, de duas mãos, que afeta essas metrópoles emergentes e corajosas: numa mão vão adquirindo as desvantagens da Capital (trânsito, insegurança, poluição, carestia...), na outra perdem as vantagens do interior genuíno (é preciso enumerá-las?). Haveria que descentralizar com planejamento, espalhando os investimentos nas e entre as pequenas cidades, cuidando para que estas vicejem, prósperas e tranquilas, e não se afoguem no crescimento exorbitante, desregrado, como na Capital e naquelas cidades “médias” tão precocemente sacrificadas ao desenvolvimento sem regra (“Médias”? Campinas já passou do milhão de habitantes. Frankfurt, a milenária capital financeira do euro e da Europa, onde morei, tem uns 700 mil). 
                       Investir  no interior pode criar condições para que os excessos de São Paulo possam ali (no interior) acomodar-se, sem dano significativo para a sociedade paulista como um todo; com ganhos, ao contrário, para o conjunto do Estado. Falo em investimento público, de Governo, porque o privado, industrial,  já há anos vai se vertendo para o interior, consistentemente, sensível aos limites já ultrapassados da Capital, e atraído pelos horizontes acolhedores, ainda inexplorados, de seu extenso entorno estadual. Quem, hoje, instala indústria de algum porte em São Paulo, e mesmo em seus arredores imediatos? 
                        O interior,  crescendo, salva São Paulo!
                        Em vez de catar mais e mais recursos para investir mais e mais em metrô, por exemplo, que gera novos problemas e ninguém pode assegurar que vai resolver os velhos, que o justificam, por que não alocar uma parte daqueles meios para restabelecer e aprimorar a malha ferroviária do interior, há décadas sacrificada no altar cobiçoso das montadoras instaladas no  entorno da Capital? A estrada de ferro levaria o paulistano, decerto, por melhores caminhos, no rumo de mais saudáveis destinos, para o bem de todos.
                      Para mim, feliz refugiado em Colina, o problema, no fundo, é evitar que o interior cresça demais! 
                     Eu sonho com o modelo de ordenamento territorial da Alemanha, onde a indústria se dispõe gostosamente no campo, sem desfigurá-lo, aqui e ali também se estabelecendo  em pequenas cidades, sem afetar sua vida de sempre, secular, autêntica. Ordenar é no caso descentralizar, tirar o proveito ótimo do todo, explorando vantagens comparativas, minimizando inconvenientes, com planejamento criterioso, previdente, visionário. A indústria se espalha por toda parte, disseminando seus ganhos econômicos e sociais, ao mesmo tempo que diluindo seus efeitos potencialmente nocivos para o meio-ambiente e a circulação, evitando a concentração em lugares específicos – tudo isso amparado por uma rede de transportes, rodoviário e ferroviário, quase perfeita. 
                          Vocês sabem qual é a cidade que concentra a maior quantidade de indústrias alemãs em todo o mundo? 
                          Espantem-se: 
                          Não é Berlim, ou Munique, ou Hamburgo,  ou Colônia, ou Essen, ou Dortmund, ou  Frankfurt, ou Mainz, ou Stuttgart, ou Bremen, ou Manheim, ou Kaiserslautern, ou Leipzig, ou Aachen. 
                         É São Paulo!!! 
                         São Paulo, o maior centro industrial alemão no mundo! Oitocentas empresas de origem alemã operando e produzindo na Capital!
                         Isso, não sou eu quem diz, quem proclama, orgulhosamente, é a poderosa Cãmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha! Vejam em www.ahkbrasilien.com.br/pt.home, se já não tiverem visto naquelas ubíquas e vistosas sacolas que a Câmara distribuía para empresário alemão levar caipirinha na volta pra casa, nelas impresso, em vivas cores, e em alemão, o slogan ufanista: 
                        “São Paulo, a maior cidade industrial alemã no mundo”! 
                       “Die größte deutsche Industriestadt der Welt!“.
                       (A tradução é do Google, que meu alemão nem pra isso dá).

SOBRE O AUTOR:


Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.

É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009.




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