sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses nº 40 - O Hino Nacional é plágio? Crônica do Emb. Renato Prado Guimarães



O Hino Nacional é plágio?

                       Fiz ontem, 29 de outubro, uma palestra com o título acima no Rotary Club de Colina. A boa acolhida me anima a republicar, devidamente revisto, texto a respeito que vem de minhas “Crônicas do Inesperado”, editadas em 2009. Em Colinenses subsequentes acrescento mais informação ao tratamento do tema, a fim de tentar satisfazer  a curiosidade cívica despertada pela palestra perante os colinenses, com respeito ao Hino e outros símbolos nacionais nossos.
                      A 20 de julho de 2.002, véspera da partida Brasil-Inglaterra pela Copa do Mundo de Japão-Coréia, “The Guardian”, o respeitado jornal londrino, publicou este inesperado artigo, empolgante para qualquer brasileiro:
                      “Procure estar à frente da televisão às 7:20 horas amanhã,  a fim de desfrutar de mais uma contribuição do Brasil para a felicidade humana. Com a França eliminada, o Brasil tem o melhor hino nacional da Copa do Mundo de 2.002. Primeiramente escrito por Francisco da Silva, em 1841, pode-se sustentar que o Hino Nacional é o mais jovial, alegre,  melodioso e fascinante (“jauntiest, cheeriest, most tuneful and most beguiling”) hino nacional do planeta. Até parece que ele vem diretamente do Teatro da  Ópera, e a influência de Rossini é difícil de ser ignorada, embora os entendidos pensem agora que Da Silva pode ter copiado a melodia de uma obra religiosa de seu professor, José Nunes Garcia. Dentre os admiradores do Hino se encontra o compositor ‘créole’  Louis Moreau Gottschalk, que escreveu um conjunto de variações para piano e orquestra que vale bem a pena ouvir.
                      No seu livro “Futebol: The Brazilian way of Life”, nosso correspondente para a América do Sul, Alex Bellos, explica como o inglês Charles Miller trouxe o futebol ao Brasil pela primeira vez. Mas quando Miller chegou  ao porto de  Santos em 1894, o Hino Nacional já havia por muito tempo expresso em música o que Pelé e seus sucessores mais tarde expressaram tão maravilhosamente no campo de futebol. Enquanto a Marselhesa faz apelos belicosos às armas, o Hino Nacional exalta os sentimentos nacionais pelo apelo ao céu puro e belo (“pure beauteous skies)”, ao som do mar e às flores de seus risonhos, lindos campos (“fair smiling fields”). Um cenário apropriado para o  futebol bonito (“the beautiful game”).
                      Quando Rivaldo e Ronaldo marcaram outros dois gols na Bélgica, segunda-feira, determinando assim a quarta-de-final de amanhã contra a Inglaterra, o “London Evening Standard” abriu suas últimas edições do dia com uma enorme manchete de uma palavra só: BRAZIL! Que homenagem! É difícil imaginar qualquer outro país cujo nome poderia ser usado dessa maneira e com tanta confiança, na certeza de que os leitores reagiriam com prazer e excitação. Se a Inglaterra fosse jogar contra a Argentina, a Alemanha, a França ou a Itália amanhã, a expectativa estaria misturada com medo. Jogar contra o Brasil é simplesmente um deleite (“delight”) e uma distinção (“honour”)”.
                     Essa inesperada avaliação não foi suficientemente difundida na imprensa brasileira da época, em toda a sua dimensão musical, futebolística e cultural. Por isso se justifica a longa citação - também cabível porque não é sempre que se lê texto tão elegante com respeito ao adversário, ou que dê tanto prazer ao leitor brasileiro (na verdade, caberia bem em qualquer antologia de nosso ufanismo). Também vale, a transcrição, pelo contraste de paz e guerra com a Marselhesa e a exaltação, surpreendente – e pertinente! –, de versos da letra do Hino que estamos acostumados a desmerecer como ridiculamente líricos e acomodados: o tranqüilissimo “Deitado eternamente em berço esplêndido...” é na verdade mais de admirar  que o  marcial  “Allons Enfants de la Patrie, le jour de gloire est arrivé!  Marchons, marchons!”. Chama atenção, ainda, no artigo, sua menção a influências rossinianas e à tese, moderna, de que o Hino deriva de peça do Padre José Maurício Nunes Garcia.
                     Havia ouvido falar, vagamente, da possível influência de Rossini em nosso Hino Nacional, mas não sabia da contribuição de Nunes Garcia referida por “The Guardian”.  Foi depois de ler aquele artigo que topei com umas belas Lições de Pianoforte de sua autoria, e, numa delas, pasmo, alertado pelo ouvido sensível de minha mulher (alemã!), com a essência melódica do Hino Nacional brasileiro. A semelhança é extraordinária e, no mínimo, intrigante.
                    A julgar por meus insuficientes conhecimentos e pela escassa bibliografia a que tenho imediatamente acesso:
                    I) Nunes Garcia aproveitou temas alheios para suporte de
                    suas Lições, Fantasias e Variações, “nas quais utiliza
                    motivos de Haydn, Mozart, Rossini, e mesmo do Hino
                    Nacional Brasileiro”, segundo a Enciclopédia da Música
                    Brasileira, editada pela Publifolha. O procedimento
                    desses exercícios sobre matéria anterior é corriqueiro e
                    legítimo - quem não conhece a Rapsódia sobre um Tema
                    de Paganini, de Rachmaninoff?  E na Lição para
                    Pianoforte de que se trata, Nunes Garcia se teria
                    inspirado na Abertura do Barbeiro de Sevilha, de Rossini;

                    II) a primeira versão do Hino Nacional Brasileiro foi
                    composta a propósito da abdicação de Dom Pedro I, em
                    1831, e teria sido apresentada a 14 de abril daquele ano
                    no Teatro São Pedro de Alcântara, por ocasião da partida
                    da família imperial. Segundo a cautelosa atribuição da
                    Enciclopédia das Folhas, era “provavelmente” de autoria
                    de Francisco Manuel;

                    III) o que veio antes: o Hino ou a Lição? O Padre José
                    Maurício faleceu em abril de 1830; não poderia ter
                    inspirado seu exercício para piano em obra póstuma a si
                    próprio;

                    IV) Francisco Manuel da Silva foi aluno do Padre, tendo
                    começado “a estudar (teoria e solfejo) ainda menino, no
                    curso livre que este mantinha na rua das Marrecas, no
                    Rio de Janeiro” (E.M.B.);

                    V) quem ouvir com paciência a Abertura do Barbeiro de
                    Sevilha, topará,  no finalzinho, com uma passagem
                    evocativa da melodia básica de nosso Hino; na Lição de
                    Nunes Garcia, a coincidência é patente, e imediata. Não
                    há vínculo assim tão óbvio e extenso, ao menos para o
                    leigo, entre a Abertura de Rossini e o Hino de Francisco
                    Manuel da Silva, embora os haja, em aparência, entre a
                    Abertura e a Lição para Pianoforte. E os laços entre o
                    Hino Nacional e a Lição são nítidos, evidentes.  Ergo,
                    nesse silogismo histórico-musical, a inspiração de
                    Francisco Manuel deve ter vindo dos exercícios do
                    mestre, mais precisamente daquilo que este acrescentou
                    ao tema de Rossini, cuja influência no Hino seria, assim,
                    por via autóctone;

                    VI) o tema está ainda inconcluso, porém, para mim. Num
                   “sarau” de música clássica em minha casa em Frankfurt,
                    apresentei aos convidados a Grande Fantasia Triunfal
                    sobre o Hino Nacional Brasileiro, de Gottschalk (que
                    menciono abaixo). Ao final, aproveitei para testar a
                    hipótese da influência rossiniana, oferecendo um CD da
                    OSESP como prêmio a quem pudesse identificar
                    semelhança entre a estrutura melódica do Hino e alguma
                    peça do repertório operístico italiano. Tive que dar dois
                    CDs! Pronta e simultaneamente, dois dos convidados
                    levantaram a mão e gritaram: ”O Barbeiro de Sevilha!”.
                    Eram os Cônsules-Gerais da Itália e da Espanha.
                    Intrigante.
                 
                    Na dúvida, só ouvindo. Da Lição de Nunes Garcia (Segunda Parte, Lição V, allegretto), existe a gravação, por sinal esplêndida, de Ricardo Kanji,  regendo a orquestra e o coro Vox Brasiliensis.  Procurar o CD n° II da edição, e, neste, a faixa 35. Não custa nada, também, ouvir, depois da emblemática Lição, a brilhante Abertura em Ré da faixa seguinte. Também, na faixa 37, a Abertura “Zemira” merece atenção – como, de resto, toda a bela coletânea de Kanji e da Vox Brasiliensis.




SOBRE O AUTOR:

Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.
É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009.


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