sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses nº 30 - Quem conhece Inhotim?



Quem conhece Inhotim?


Amiga me propõe irmos juntos visitar Inhotim.

- Não ouvi direito. Quê que é isso?

- I-nho-tim!

- Entendi o nome. Esquisito.  Mas quê que é isso? Onde fica?

- Uma espécie de jardim botânico mais parque de artes. Perto de Belo Horizonte. Dizem que é uma beleza.

Mais pela amiga do que pelo Inhotim, lá fui eu. Não me arrependo. Valeu pelos dois: a amizade só fez crescer e Inhotim me deixou de boca aberta, queixo caído: realmente uma  maravilha. Por sinal, a amiga também.

Quem conhece Inhotim?

O Guia 4 Rodas elegeu Inhotim, em 2011, a “Atração do Ano” no Brasil. E na edição de 2012 não lhe poupa elogios: “...é o maior centro de arte contemporânea a céu aberto do mundo”; “...nada no mundo se compara ao Inhotim”; “... a estrutura para turistas é de primeira, restaurantes, lanchonetes, monitores  limpeza e conservação impecáveis”.  O Itamaraty fez reunião internacional lá. O “New York Times”, usualmente cético,  escreveu, derramado,  que “poucas instituições se dão ao luxo de devotar milhares de acres de jardins, montes e campos a nada além de arte, e instalar a arte ali para sempre”. Na Internet, dezenas de sites se referem a Inhotim e o elogiam sem reservas, em rara unanimidade.

Mas ninguém conhece Inhotim.

E não é só arte contemporânea que tem lá. Exuberante é a arte maior, essencial e telúrica - a própria natureza, posta em relevo por meio de um paisagismo com culminâncias estéticas extraordinárias. Burle Marx tem um dedo em tudo, ainda quando póstumo. (Meu primo e amigo José Diniz também tem rastro seu lá, e muito vivo ainda,  ele que concebeu e desenvolve uma ambiciosa réplica de diversos ecossistemas brasileiros em seu Haras de Montemor, de onde saíram, doados a Inhotim, muitos conselhos botânicos e caminhões e caminhões de mudas). A riqueza botânica é fantástica, exposta com cuidado de manicure do sopé ao topo das colinas e ao longo de cinco lagos de água em reconfortante tonalidade esmeralda. As variedades de palmeiras (1.400!), belíssimas, surpreendem a qualquer conhecedor leigo; e tem de tudo de vegetação nossa e alienígena, da familiar e cotidiana à rara e em geral esquiva a nossos olhos triviais.  

Um presente de Minas ao Brasil, e ao mundo. Coisa de um empresário excêntrico (sadiamente) da área de mineração e siderurgia, Bernardo Paz,  que resolveu associar natureza e arte, ecologia, educação  e entretenimento,  num projeto visionário, que precisa ser visto.

É o melhor passeio que você ainda não fez, como proclama um site na Internet.

Inhotim fica a uns 600 km de Colina, junto a Brumadinho, que está à beira da BR-381 – a Fernão Dias (São Paulo-Belo Horizonte). Daqui dá para ir via Sales de Oliveira, Batatais, São Sebastião do Paraíso, Passos, Divinópolis, desembocando em Betim, a vinte e poucos quilômetros do Parque – umas 8 horas de viagem, com direito a uma pausa na represa do rio Turvo, de Furnas, com hotéis, restaurantes, passeios de lancha, etc.  As crianças vão adorar Inhotim: tem cachorro quente a cada volta dos caminhos, muito espaço para correr e pular, as instalações de arte são, muitas, bastante  lúdicas – ensejando uma interação saudável e refrescante com a arte  e entre todo mundo. Tem até guerra de travesseiro, dentro de uma instalação!

Nem tudo estará ao gosto de todo mundo e de algumas obras você pode não gostar (eu não gostei de várias, até porque já meio passadas, contemporâneas, sim, mas dos anos 70, 80 do século passado); mas sempre é bom ver um pouco dessa arte de vanguarda para ter uma ideia de como será o futuro. Aliás, a arte (humana) perde para a da natureza também na avaliação do próprio criador do lugar: “Eu não me considero um apaixonado pela arte. Jardins, isso é o de que eu realmente gosto”, disse numa entrevista ao “New York Times”.  

 Cuidado é preciso com a hospedagem. Brumadinho ainda não se encontra preparada  para abrigar o turismo crescente de Inhotim, e há pousadas que alegam uma proximidade interessada com o Parque. Fui a uma que estava a 28 quilômetros. Mas que quilômetro! Asfalto, um pouco; o mais, terra – e terra escalavrada pelos caminhões das mineradoras, buracos em amplo sortimento, em toda extensão, direção e profundidade, da prosaica costela de vaca à cratera lunar. Hora e dez de viagem, sofrida, aos solavancos e sobressaltos, e aquela pena doída do carro novo.... Cheguei, aliás, a uma conclusão inspirada no meio de tanto sofrimento estradeiro:  em matéria de estrada, onde não tem buraco o mineiro na certa põe lombada, o que faz as estradas de Minas tão montanhosas como seu relevo e sua alma, de declives assombrosos a cumes sublimes. (Essa aí, até o Oto Lara Rezende assinava, ele que foi o autor jamais confesso do genial “O mineiro só é solidário no câncer!”)

Demais, descobri nessa viagem, depois de incontáveis perguntas pelo caminho certo, e igual número de respostas, invariavelmente gentis mas no gênero “é bem aliii...”: pelo tempo que se leva para percorrer cada distância, o quilômetro mineiro é como o alqueire - mede  o dobro. (Essa o Fernando Sabino também endossava, decerto.)

Dirão que tanto entusiasmo  é um exagero do cronista. Mas na Internet (www.viajenaviagem.com/2010/09/Inhotim-o-melhor-passeio-que-voce-ainda-não-fez), encontrei, de autoria de Ricardo Freire, esta defesa antecipada: “Ainda estou para ler (sobre Inhotim) algum relato sóbrio – que dirá decepcionado. A reação parece ser uma só: visitou, deslumbrou”. Ademais, como observou, sabiamente, a amiga, “é bom incentivar as pessoas para curtir um programa sadio, perto da arte e a natureza tão belamente organizada”.

Viva Minas! Vamos conhecer Inhotim?

P.S. - Vim a saber, depois da viagem, que Bernardo Paz, além de excêntrico, é meio controvertido entre seus pares, de Minas e alhures, que lembram pecados empresariais graves que lhe são imputados. Mas aqui o que importa não é o autor, mas sim a obra – primorosa, esplêndida).

P.S. 2 – Se houver quem queira ir conhecer Inhotim, avise. Quem sabe a gente possa organizar um comboio colinense. Eu não hesitaria em voltar, botando de novo  meu Nissan na estrada.

P.S. 3 – Pode ser exagero, mas todo o tempo vi o paisagismo dos lagos de Inhotim à luz do que se poderia fazer de semelhante ao redor do lago de Colina, tão bonito mas melancólico em sua consistência estética ainda monótona, tediosa. É preciso dar-lhe chispa, vida!




Sobre Inhotim - site oficial: clique aqui




SOBRE O AUTOR:

Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.

É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009.
Para contatos, usar o endereço de e-mail rpguimar@gmail.com

Aberto às suas opiniões, sugestões, etc...

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