sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses nº 57 - Desforra informática - crônica do Emb Renato Prado Guimarães



Desforra informática

                Ansioso e encabulado ante minha admitida incompatibilidade com o Facebook, a caixa preta para mim intransitável, nem vou esperar: já agora, e adiante, reproduzo duas crônicas que se encadeiam e podem em alguma medida redimir-me daquele humilhante constrangimento informático. Ambas vêm do módulo “Modernidades antecipadas”, das “Crônicas do Inesperado”, livro lançado na Feira Internacional do Livro de Frankfurt, em outubro de 2.009, pela editora da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.


Eterno e moderno

               No final dos anos setenta, em Belo Horizonte, perante diplomatas que participavam de um pioneiro curso de promoção de exportações, o competente e esclarecido Secretário de Indústria e Comércio de Minas Gerais (e depois Ministro da mesma pasta em Brasília), João Camillo Pena, tomou a palavra para celebrar a bem-vinda “transformação” da diplomacia, agora sim se ocupando de interesses concretos do país – ou sejam, em sua visão, os da indústria e do comércio.
 Em respeito às glórias passadas da diplomacia brasileira, tornou-se imperativo lembrar as palavras emblemátivas de Silveira (Antonio F. Azeredo da Silveira, então Ministro das Relações Exteriores): a melhor das tradições do Itamaraty é saber renovar-se. Na verdade, o Ministério só fazia àquela altura o que sempre fizera: servir ao País, ajustando-se a suas necessidades em cada momento histórico, do reconhecimento da independência à afirmação do território e a definição jurídica das fronteiras, à negociação dos grandes acordos internacionais, políticos e economicos, à gestão de nossa vocação pacífica nas e entre as Grandes Guerras, à construção de uma identidade diplomática nítida e respeitada, à promoção do comércio e dos investimentos.
              A diplomacia sempre tratara do que era a seu tempo prioritário.
              A título de ilustração, vieram à baila palavras atribuídas ao grande poeta da terra, Carlos Drummond de Andrade, de que Minas Gerais, que sempre se quisera eterna, agora pretendia também ser moderna.
             Para arrematar-se com a afirmação muito audaciosa de que o Itamaraty tem uma ambição ainda maior: a de ser eternamente moderno.
            Haja retórica!


Internet antes da própria. No Itamaraty!

              Mas nem tudo era retórica. Na verdade, houve ocasião em que, além de “eternamente moderno”, o Itamaraty pode ter sido moderno antes da hora. 
Faz bem pouco que me defrontei com inesperado realmente desconcertante: ocorreu-me que a diplomacia brasileira pode ter montado e operado um equivalente da Internet antes da própria! Ante meu pasmo interior, consultei colegas mais esclarecidos nos mistérios da informática e tive confirmação de que a rede internacional que armáramos nas décadas de 70 e 80, para apoiar a promoção da exportação brasileira, configurara uma Intranet anterior à Internet.
            Explico:
            Em fins dos anos 70, o Itamaraty começou a montar, a partir de seu Departamento de Promoção Comercial, em Brasília, e do Brazilian Government Trade Bureau, em Nova York, uma rede de terminais digitais de computação, interconectada por telefone e “acoustic couplers”. Instalados nos Setores de Promoção Comercial de Embaixadas e Consulados, esses terminais permitiam a inserção, o armazenamento, a busca eletrônica e a recepção de informações sobre produtos exportáveis, empresas exportadoras brasileiras e importadoras em cada país, oportunidades de comércio e de participação em concorrências internacionais. A rede permitia acesso também ao pioneiro banco de dados do New York Times, bem como às informações comerciais da Dun & Bradstreet, sobre empresas individuais. Chamava-se, prosaicamente, Sistema de Processamento Eletrônico de Dados, mas na abreviatura – SPED - dava ideia de seu propósito acelerador, em inglês.
            Era o que se chamaria hoje de Intranet, pois era uma rede global de transmissão de uso compartilhado, habilitando
           (i) interconexão de diferentes sítios geograficamente dispersos para intercâmbio instantâneo de informações (sendo que no caso do Itamaraty isto se fez a nível internacional - muito mais ousado);
           (ii) disponibilidade de comunicação 24 horas, sete dias por semana, mundialmente;
           (iii) bases de dados uniformes e centralizadas, com alimentação e atualização descentralizadas;
           (iv) garantia de segurança e confidencialidade dos dados e informações veiculados.
           Tudo foi feito com muita dificuldade e abundante improvisação. No início da operação do sistema, o Itamaraty tinha cerca de 90 postos no exterior interligados por uma rede mundial de transmissão de dados, mas a "central", em Brasília, não tinha meios de conexão internacional! Resultado: a transmissão de dados se dava por terminais digitais entre todas as unidades no exterior, mas entre essa rede satélite e seu núcleo eles caminhavam em carretéis de fitas magnéticas carregados por malotes aéreos entre Brasília e Nova York. Esta limitação só pode ser corrigida depois que a Embratel inaugurou seus serviços de comunicação internacional de dados, com o Interdata, em meados dos anos 80.
             A instalação foi certamente trabalhosa, com diversos sobressaltos, mas o sucesso foi instantâneo. Os postos passaram a contar com um instrumento expedito e eficiente para processamento, transmissão e recuperação de suas informações de apoio às exportações. Por outro lado, em toda feira onde houvesse presença brasileira, presente estava também o terminal mágico, que emitia listas atualizadas a qualquer consulta de eventuais importadores.
            Foi sem dúvida um empreendimento pioneiro, que consolidou a avaliação do Centro de Comércio Internacional (órgão estabelecido conjuntamente pela UNCTAD e pelo GATT) de que o sistema de promoção de exportações brasileiro era o melhor dos países em desenvolvimento. Em plano mais acima, contudo, ainda no início dos anos 80, durante reunião em Paris, mesmo os dirigentes da entidade francesa encarregada da promoção de exportações mencionaram planos de um sistema de troca de informações ainda futuro e a seu juízo muito avançado e ambicioso (e que só conseguiriam implantar 15 anos depois). O então Ministro Paulo Tarso Flecha de Lima, Chefe do Departamento de Promoção Comercial, teve o gostinho de polidamente atalhar as fantasias inovadoras e um tanto arrogantes de seus interlocutores com o convite inesperado: “Se vocês quiserem ver isso aí funcionando, venham comigo ali, ao Cours Albert Premier” (onde se encontravam a Embaixada e um dos terminais de nossa rede).
             No final dos anos 80/início dos 90, alguns outros países implantaram sistemas semelhantes, seguindo nosso exemplo – dentre eles países em tudo altamente desenvolvidos mas, no caso, subdesenvolvidos, atrasados com relação ao Brasil. Prova da qualidade da iniciativa brasileira foi também o fato de os técnicos nela envolvidos acabarem contratados pela companhia americana que dava suporte de comunicação e armazenamento de dados ao sistema. Como ainda o fato de que diplomata envolvido na implementação do projeto ter sido “requisitado” pelo Centro de Comércio Internacional UNCTAD-GATT, como consultor, para ajudar os governos de Hong-Kong e do Egito a montarem suas respectivas redes de processamento de dados para a promoção comercial, bem como para ser o protagonista principal de seminário que o Centro organizou a fim de que os órgãos de promoção comercial dos países membros do então Mercado Comum Europeu, embrião da União Europeia, se inteirassem das possibilidades abertas por uma rede de transmissão de dados operando no exterior e vinculando seus postos com a sede central nas respectivas capitais.
             O Brasil ensinando os europeus a exportar! Nos anos 80!
             Mas não ficou na informação comercial a utilidade inovadora do SPED.
             Desde sempre, os postos do Itamaraty no exterior careciam de informação regular e confiável sobre o dia a dia do Brasil. Nos anos 80, havia um boletim telegráfico, que chegava, sempre tarde – lacônico, incompleto, bisonho. Jornais vinham eventualmente nos vôos da VARIG, para os postos em cidades que a empresa servia; vivamente disputados, a leitura era rigorosamente hierárquica: antes o Embaixador, ou o Cônsul, depois os demais funcionários diplomáticos, na ordem de antiguidade. O Terceiro Secretário os recebia em farrapos, recortados pelos leitores anteriores. Para os demais funcionários, nem os buracos dos recortes sobravam. Revistas chegavam também pela VARIG e, irregularmente, pela mala diplomática, cumprindo penosamente o mesmo ritual de cima para baixo. Não por menos, no rol dos sonhos de consumo de muitos dos novos diplomatas, quando removidos para o exterior, estava algum dos poderosos aparelhos de rádio especializados na captação de ondas curtas, em geral o venerável “Zenith Transoceanic”. Minha ponte da Bélgica com o Brasil era de fabricação alemã, o sólido “Grundig Satellit”. Mas a recepção era sempre falha, insuficiente, e as emissoras captadas um tanto esdrúxulas; os colegas, esperançosos, chegavam a trocar dicas sobre antenas e as frequências mais promissoras. Nas noites de inverno em Bruxelas, minha única companhia acessível no Brasil era a da Rádio Difusora de Poços de Caldas, a ZYL-282 nos 1.250 kHz.
              Consolidado o SPED, ocorreu a ideia: por que não usar a rede tão bem sucedida na promoção comercial para também transmitir informações diárias sobre o Brasil?
              Depois de muita relutância das altas chefias da Casa, estabeleceu-se um prazo de 6 meses para testar a inovação. De imediato os postos passaram a receber, às 9:00 horas da manhã – hora de Brasília –, diariamente, cópia integral de sinopse das notícias publicadas nos principais jornais do país, elaborada pela mesma agência que preparava a sinopse diária para o Presidente da República. Foi uma revolução. Poucas inovações terão feito tanto para aproximar a periferia de seu centro, para fazer os satélites se articularem mais espontaneamente com o respectivo núcleo.
            Em Washington, tínhamos duas horas de atraso no fuso, com relação a Brasília. Às 7:00 horas do dia inaugural, aguardei na beira do terminal o primeiro boletim, printei eu mesmo a peça histórica e a mandei para o Embaixador, na Residência, cuidando também, democraticamente, para que cópias chegassem prontamente à mesa de todos os demais diplomatas do posto e fossem afixadas nos quadros de aviso, para conhecimento geral.
            O Embaixador me chamou logo ao chegar a seu Gabinete para dizer, comovido (não exagero ao dizer que com lágrimas nos olhos):
           - “Pela primeira vez, em décadas de exterior, comecei o dia hoje informado e seguro. Senti-me no mesmo tempo de meu país”.
            Na verdade, antes do tempo, em razão da diferença de fuso: momentos depois recebeu chamada telefônica do Rio, de amigo que queria dar-lhe notícias importantes, como fazia habitualmente, e ele se deleitou em mostrar que das novas soubera aquele dia primeiro, apesar de tão distante, geograficamente, da Pátria.
           Por seis meses, invariavelmente às 9:00 de Brasília, o boletim esteve diariamente disponível em cada posto onde existia terminal do SPED. Findo aquele prazo, por motivos com os quais não conseguimos atinar, na época, nem agora (há quem suponha que ligados meramente a ciúmes internos no Ministério), as altas chefias determinaram que a experiência com os boletins fosse encerrada.
           Deu-se aí feliz inesperado. O fim do prazo coincidiu justamente com a votação das “diretas já” no Congresso Nacional. No dia seguinte ao da votação, os funcionários no exterior aguardaram ansiosamente a sinopse, a fim de saberem o resultado. Às 09:00 de Brasília, os terminais estavam acesos no mundo todo, impacientes. E a sinopse não veio. Os postos insistiram e mantiveram seus terminais teimosamente “on line”, até que a rede caiu em razão de “overload”, causando protestos da empresa gerente da plataforma telefônica do SPED, pois a sobrecarga deste afetava outros importantes e estratégicos usuários (chegou-se a nomear a CIA e a NASA).
            Choveram então os telefonemas dos postos a Brasília, cobrando o boletim suspenso – muitas vezes com indignada aspereza. Houve mesmo a insinuação de que o Ministério estaria sonegando o resultado da votação à periferia – manobra autoritária, de censura, desinformação.
             A pressão das bases foi tanta que as mesmas altas chefias tiveram que voltar atrás e autorizar a continuidade do serviço. Que prosseguiu, constante, pontual e indispensável, por anos e anos - graças às“diretas já”! O boletim se tornou a primeira leitura diária dos diplomatas e, igualmente, das autoridades brasileiras em viagem pelo exterior, que se acostumaram a cobrá-lo das Embaixadas e Consulados, imperativamente. E os postos faziam boas relações públicas, distribuindo-o na comunidade brasileira em sua jurisdição. Até que sua utilidade se exauriu, em função das novas facilidades da Internet, da qual fora mui valente e atrevido precursor.
           Na esteira da experiência adquirida com a Intranet da promoção comercial, e usando a mesma plataforma telefônica, o Itamaraty introduziu, na segunda metade dos anos 80 (1987), o uso de correio eletrônico internacional para comunicações de telegramas e outros dados entre Brasília e todos os postos no exterior. Com certeza foi também uma ação pioneira, mesmo entre os serviços diplomáticos. Basta lembrar que, na época, ainda não existia o Windows para os microcomputadores (só se usava o DOS da Microsoft). E muito menos aplicativos de correio. Era só telex, o fax apenas começava - e o Itamaraty, eternamente à busca do moderno (mesmo quando não muito consciente disso...), se lançou na empreitada futurista do correio por dados. Que deu certo!
            Agradeço a Michael Neele, Fred Carvalho e Luiz Gilberto Andrade por me terem ajudado a relembrar dados sobre o SPED e saudosos episódios a ele ligados. E também, por dever de consciência, aos que me teriam recordado mais, tivesse eu meios de contatá-los, protagonistas essenciais de nossa saga pré-Internet: o cítrico Eziel Fernandes, a Cândida Borges, o Roberto Hall. Obrigado também a Carlos Átila, inspiração primeira e brilhante de tanta coisa boa daqueles tempos pioneiros, e a Guilherme Leite Ribeiro, que deu os primeiros passos para o lançamento do sistema no Brazilian Government Trade Bureau, em Nova York.
            E, sobretudo, claro, muito obrigado a Paulo Tarso Flecha de Lima, propulsor inicial e incansável da ideia, por ter-nos dado, a todos, a oportunidade de participar de tal aventura, desbravadora e gratificante.
          “Part of it, proud of it” – orgulho que a descoberta inesperada da antecipação à Internet só faz reacender, reconfortante, reparadora.

SOBRE O AUTOR:

Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.

É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009

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