sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses nº 32 - Vamos embora para Jaborandi? - Crônica do Emb. Renato Prado Guimarães (Jaborandiana nº 1)



Vamos embora para Jaborandi?

Colina não cresceu, nem cresce, porque tem Barretos e Bebedouro perto, disse a amiga, com visionária sabedoria. É o óbvio, claro, mas o Millor (Vão Gogo) sempre disse que nada é mais difícil de ver do que o óbvio... No fim das contas, o visionário nada mais é do que aquele que vê o óbvio primeiro.

Se é tão fácil conseguir o que se precisa  numa das duas cidades, de 15 e 25 minutos distante, por que investir aqui? Só para imitar, duplicar? Muito mais racional é tirar partido da distância pequena, e das boas estradas,  para obter o necessário ao melhor custo, apesar do inefável pedágio. Colina agrega mercado a Barretos e Bebedouro, o que é bom para ambas, mas também lucra ao não ter que comprometer recursos em aplicações que a proximidade torna dispensáveis. Melhor é canalizá-los para onde o custo-benefício, econômico e social,  é maior, em proveito de uma qualidade de vida homogênea e sempre mais elevada para o todo da população.

E quem diz que Colina não cresceu? Desde que a conheço, cresceu sim, ao menos triplicou o espaço urbano. A capacidade produtiva também se diversificou e ampliou, com a presença de unidades agroindustriais de porte, bem como a evolução sem traumas do café para a laranja, desta para a cana, da cana (em curso) para a seringa. Presença que não chegou a mudar a cidade, em sua essência,  mas em algo qualificou seu modo de vida.

Ainda vou lançar um debate em torno do tema: Colina deve crescer? Ou, numa visão demonista,  deve vender sua alma ao progresso? Eu me sinto ainda novo demais na cidade para opinar, mas tenho curiosidade com relação a qual é o pensamento dominante a respeito. A amiga citada aí em cima, a visionária do óbvio, teme  o colateral nocivo de presumir no crescimento, e desde já proclama: Se a vida começar a complicar aqui em Colina, mudo logo pra Jaborandi! E ela é daqueles que  um dia repudiaram as metrópoles e deram, como eu,  o brado do retorno às raízes irredutíveis no interior: “Vou-me embora pra Colina!”.

Em alguma parte destas Colinenses já lamentei o processo perverso por que vêm passando as cidades médias e grandes do Estado – processo de duas mãos, ambas com destino nefasto: no mesmo ritmo em  que vão adquirindo as desvantagens da Capital, vão celeremente perdendo as vantagens do interior. Se Colina entrar nessa, o que será de nós que tanto a apreciamos como é hoje, e como foi no passado?

Vamos embora  pra Jaborandi?

Mas e se Jaborandi crescer ao lado de Colina?

A ameaça-bravata da amiga me levou a fazer uma visita a Jaborandi, domingo passado. Circulei a esmo pela cidade, contornei seus quarteirões simétricos e serenos, admirei as ruas limpas e desimpedidas,  demorei-me apreciando os contornos geométricos e meticulosos dos canteiros da praça principal. Observei a cidade, notando-a viva e ativa, embora tranquila na sesta dominical.  

Gostei.

Em Jaborandi tenho igualmente raízes profundas - origens pré-natais.  Meu pai passou boa parte da infância na Mandaguari, da qual meu avô, Orestes Guimarães, foi administrador. Ando até relendo uns escritos antigos dele, meu pai, que rememoram aqueles tempos criadores e os amplos espaços da fazenda formada pelo Coronel Luciano de Mello Nogueira, e a vida que ali se tinha – uma verdadeira epopeia do desbravamento da região, pelo lado da gente que a fez no dia-a-dia, a partir  da sede da fazenda, da casa do administrador, da colônia e seus habitantes de tantas origens... Epopeia um tanto lírica, bucólica, mas minuciosamente documental. A excursão a Jaborandi me lembrou os cenários daqueles rabiscos de outros tempos, aprimorando minha percepção do drama da criação. De meu pai, sobre o criador: 

“O Coronel Luciano de Melo Nogueira, (da Guarda Nacional, ninho de política, não de guerra), de origem fluminense, saiu da ex-cafeeira Rezende, RJ, para Minas Gerais, onde casou na área de Passos. Montou café em Monte Santo (MG) e formou família. Com ela crescendo e, com e como outros Nogueira fluminenses, enfurnou-se em São Paulo. A sua “bandeira” foi dar entre Colina e Jaborandi, arraiais de Barretos e de terra boa. Acampou com seu povo, abriu a mata, a mulher, dona Sintota (Jacintha Carvalhaes Nogueira), de cozinheira-chefe e, começou a Mandaguari. Chegou a 1.500 alqueires paulistas e a um milhão de cafeeiros, além de muito pasto e lavouras de palhada. Isso durante o primeiro quarto de século. A fazenda acabou virando um povoado: venda, barbeiro, colônia de tijolos, relojoeiro, grupo escolar, serraria, ferraria, máquina de benefício, palco na tulha... Depois, piscina, duas “casas grandes”, eletricidade, água encanada, telefone... Ao envelhecer, foi morar em Colina, mas vinha muito a pé à fazenda, a uma légua e, brincava com os netos na piscina, nadando “de cachorrinho”. Foi chefe político nas redondezas, humilde e amável. Distribuiu as terras entre os nove filhos e em tempo ruim, fim da amarga década de 30. Foi-se aos 70 e tantos, na década de 40, a fazenda espandongando. Salvou-a o filho homem mais novo, Lupércio Carvalhaes Nogueira, ajeitado na seção de Santa Cruz, terra arroxeando. Morava na fazendinha, que reformou e eletrificou, pôs água na torneira, fez agricultura diversificada, puxada pelo café e... vendeu-a quando a velhice lhe pegou a vez”

Um dia ainda publico, aqui ou alhures, uma passagem épica daqueles escritos venerandos: uma viagem de carro-de-boi dentro da Mandaguari, da fazenda-sede até a Santa Cruz (1), para uma festa e uma partida de futebol que não houve. Documento de uma época, na geografia rural, nos hábitos do cultivo e da gente, na linguagem, nos desafios afinados e poéticos,  na interação social.

De Jaborandi, aproveitei para ir a Terra Roxa, que não conhecia. Que estrada deslumbrante, em sua singeleza, que cidadezinha amável e acolhedora – a começar pela Bandeira Nacional plantada à entrada, com orgulho! Volto outro dia, para ver melhor. Mas a estrada realmente me encantou, lisa e sinuosa, sem a aspereza entediante das grandes retas, serpenteando pela crista das colinas de verdes bem plantados, deixando ver e entrever fazendas antigas, evocativas, melancólicas casas de colônia. Daqueles caminhos em que a gente até reduz a velocidade, pelo prazer singelo de estar neles e poder percorrê-los com o coração aberto, a alma livre e grata; daqueles passeios em que não só se vê a beleza da paisagem, mas também se a sente e incorpora no âmago de nosso ser - sentimento total, que associa a paisagem visual presente à evocação misteriosa de  lembranças  submersas, atávicas, de todo o sempre.

Combinei com a amiga voltar a Terra Roxa, a fim de ver melhor. E dali alargar o passo até Viradouro, depois retroceder em direção a Morro Agudo, abeirar  o Rio Pardo, afluindo nós também, com ele,  para o Grande, via Guaíra e Miguelópolis.

Com cuidado, claro, para esquivar por ali  a abominação rodoviária da qual tratei - ou maltratei - na Colinenses no. 18: Buraco no mapa. 


(1) A Santa Cruz era uma das seções ("colônias") em que se desdobrava a imensa Mandaguari. Estes versos de violeiro, recolhidos por meu pai,  dão ideia da  extensão da Fazenda e de teimosas rivalidades entre suas várias partes. Cito, de "Notícia do Mundo", inédito: (Ante uma provocação inoportuna, bairrista, de gente da Santa Cruz), "o Serafim entrou na roda, pinicando a viola e acalmando:
                        - Tudu aqui é Mandaçaia,,
                          genti du bom coroné;
                          i quem tivé sem acordo,
                          levanta o corpo i dá nu pé. 

                        - Jataí, Santa Cruz, Grão-de-Bico,
                          Engenho, Boa Esperança
                          Mercadinho e Nova Olinda,
                          tudu é da mema lambança. 
                        Aplausos gerais. Até o coronel aplaudiu. O Leopoldo, sempre sério e calado, levantou-se e puxou um urra, para cada colônia, para a Mandaguari em geral e para o coronel.
Finalmente veio o negro Balaio, que quase entornou o caldo:

                       - Somemo tudu u que sai
                          dus terreirão da Mandaçaia, ,
                          i bamu vê qui a Santa Cruiz
                          é a qui arruma a mior laia

                        - Por isso, em tudu, nu truco,
                          na dama, nu futebó,
                          a genti qué sê u primero,
                          da manhã au pô du só"..

P.S. - Mandaçaia é o pseudônimo da Mandaguari no texto do papai. Por que? Ele nunca explicou.


SOBRE O AUTOR:

Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.

É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009.
Para contatos, usar o endereço de e-mail rpguimar@gmail.com


Aberto às suas opiniões, sugestões, etc...

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