sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses nº 66 - O dia em que o trem voltar - ultima crônica da série Colinenses do Emb Renato Prado Guimarães



O dia em que o trem voltar

O dia em que o trem voltar,  eu vou estar em cima da ponte.

Olhando pros lados de Bebedouro, cerveja do Júlio numa mão, pra comemorar, máquina de retrato na outra, pra guardar.

E vendo (ou presumindo, sonhador), pra ver o trem passar,

 ... povo, muito povo, em volta da estação, dos dois lados, e  ao longo da linha.  Bandeiras e bandeirolas, faixas de boas-vindas. Escolas em formação. Banda de música de fôlego preso a fim de soprar forte na hora certa, competindo bonito para abafar o grito estridente  da máquina esfuziante. Sinos da igreja repinicando, alvissareiros. Fogos armados, ansiosos por espocar e enfeitar o azul luminoso do céu colinense;

... o  Mi, o Ronaldo, Secretários e Vereadores, o Juiz, demais autoridades (o Promotor e o Delegado estão afastados), dispostos em fila na plataforma coberta da estação,  aprestando-se para saudar o filho pródigo, já saindo da parada de Bebedouro (o Dieb avisou), e antecipando a satisfação de sentir primeiro o hálito cálido da locomotiva, carregado de reminiscências;   

... no meio deles, o Dieb, organizador irreprimível, de ouvido grudado no celular, esperando o anúncio da passagem por Mandembo, depois Perobal,  para a perna final da jornada gloriosa; e relembrando os planos dos tempos de Prefeito, de tirar os trilhos de onde estão, desviá-los para passarem mais para o poente, lá pelas bandas da fazenda do Governo, a fim de evitar os inconvenientes de ruído e tráfego para a cidade que a ferrovia reparte (unindo): os cruzamentos perigosos, as cancelas, o resfolegar das locomotivas, os entrechoques dos vagões ruidosos, o áspero roçar de rodas e trilhos – o mais estridente dos acasalamentos mecânicos;

... a molecada se empurrando pra encostar o ouvido nos trilhos há tanto silentes, pra ver quem ouve antes a locomotiva imponente já à distância; alguém mais velho  disse que dá até pra sentir de muito longe a vibração das rodas!; até uns mais atrevidos se empinando  em cima do trilho, braços abertos pra ajudar no equilíbrio, redescobrindo o exercício e passatempo há tanto esquecido; eu até querendo descer da ponte e ir lá, pra mostrar como é que faz, menino num trilho,  menina no outro, mãos dadas sobre os dormentes, se aprumando desde cedo solidários nos caminhos da vida;

... os incontáveis serviços ambulantes de som, por uma vez solidários com a cidade, sobem e descem ruas, tonitruantes, tocando o Hino Nacional, o Hino de Colina e o “Trenzinho Caipira”, da Bachianas no. 2 do Villa-Lobos (fui eu quem arranjou a gravação); tanta barulheira que o pessoal de Jaborandi, ensurdecido, reclamou outra vez; mas não importa: hoje é dia de festa; e o barulho é cívico!

... muita gente de Jaborandi veio ver o trem passar; quem sabe esperançosa de que algum dia volte a correr  roda de aço também sobre o ramal lenheiro que o Engenheiro Morelli construiu para a Paulista até lá, Jaborandi, a fim de trazer combustível para suas vorazes locomotivas a vapor na linha-tronco; mas com que propósito,  hoje em dia?: o trem só teve um maquinista, toda a vida, não carregava passageiro e, quanto a carga, cadê madeira?; sem contar que locomotiva agora anda por conta do diesel antipático e sulfuroso; por sinal, há algum vestígio do tal ramal lenheiro? quem souber de algum rastro, me avise, por favor;

... o Padre Santana preparando-se para dar a bênção ao trem, cogitando em como o Padre Vieira faria para encaixar o comboio ressuscitado no sempre bem cuidado  sermão dominical na Matriz;

... o Paçoca pondo o pessoal do futebol em forma, times uniformizados ao longo da linha, pela ordem da classificação no último varzeano, todo mundo calçando chuteiras da Sapataria Fera; 

... a  Renata Paro, orgulhosa de sua Nikon nova (ela trocou a Canon),  e que vem produzindo admiráveis resultados, escolhendo  a meu lado a melhor posição para a foto histórica: o gradil da ponte no primeiro plano, os trilhos centrados com antecedência num losango vazio, que vai emoldurar de amarelo pálido  o retornando ilustre, ainda distante, além do horizonte; como uma foto de reencontro, da ponte sedentária com o companheiro peregrino, se aproximando;

... a própria ponte à espera do parceiro ausente por tantas décadas, antes disso companheiro regular também por muitas e muitas   décadas,  um pouco viageiro mas invariavelmente constante em suas passagens e seus apitos,  ternos e galantes no duro e durável namoro dos seres de aço;  

... ciumenta, a ponte reclamando com seus arrebites (botão de ponte de ferro é arrebite): toda essa festa pra ele, o trem,  que nos abandonou há tanto tempo, e para mim nada, eu que estou sem mexer daqui desde 1936 (cumpro 77 anos no 1º. de maio); nunca tive festa, homenagem, só se lembram de mim pra fotografar  e quando é pra tirar vespeiro ou pra dar uma pintada sumária e cosmética, que vou ficando velha e feia, precisando  mais é de plástica, sobretudo na madeira dos degraus e do piso; até me interditam, por causa das abelhas, e ainda me  procuram para outras coisas indizíveis, que vejo e me fazem corar, lady pudica que sou, embora vinda de terras também impudicas; outro dia o vento soprou pra cá uma folha do “O Colinense” e descobri que o Wagner  Cotrim está até insinuando que virei lugar mal-afamado; infâmia,  injustiça, ingratidão!;

... pois é, um dia afrouxo meus arrebites cansados e despenco sobre o trem infiel; aí, sim, vão falar de mim, o Beto Felice vai botar na primeira página, vai dar manchete até no “O Diário” e no “Jornal de Barretos” (teria sido melhor no tempo da “A Semana”, do Mario Mazzei Guimarães, anos 1930 e 1940, eu ainda novinha, nos trinques); e quero ver quem é que vai me levantar de novo, agarrada no trem infiel, não por afago mas para amassá-lo e arranhá-lo  todo, como bem merece, o sem-vergonha; vão trazer grua gigante da Paulista (ou ALL, ou RUMO), mais gente virá pra me ver do que pra volta hoje desse trem sem nenhuma graça, aventureiro e pérfido, oportunista; de repente, o levantamento da ponte desapontada dá até Jornal Nacional!;  que desforra daquele  cafajeste, sabe-se lá o que fez quando esteve longe, vai ver que até namorando locomotiva de bitola estreita, ou aquela ponte inglesa lá por Americana que dizem que é irmã gêmea minha;

... o Lolô Junqueira desfiando suas lembranças, citando de cor a data e a hora  em que o trem chegou pela primeira vez, vai ver que até o  nome do maquinista ele sabe; rememorando também aquela resposta atribuída ao Cel. José Venâncio, a Diretor da Companhia Paulista que lhe perguntara o que esperava ganhar com a doação das terras pelas quais a linha passaria: Só quero mesmo é ouvir o apito do trem!, aviso sonoro do progresso que chegava, e ficava; cismando ainda em que, tão ligado à estrada de ferro, ele, Venâncio, justamente num trem é que viria a morrer, em 1925, em viagem de regresso a sua Colina;

... o Napoleão Jorge II, de título emprestado mas nobreza genuína,  combinando com  rotarianos e maçons, bandeiras desfraldadas, suas saudações singulares, embora coletivas; ele se lembrando de mandar checar se cortaram mesmo aqueles galhos da árvore frondosa em frente de sua casa, que se debruçam baixo sobre a primeira curva dos trilhos, já mesmo os tocando, carinhosos,  na saída pra Barretos; trem também tem baliza de teto[1] em Colina; não vai a máquina empacar justo ali, defronte da casa antiga e  patrícia, cuja sala  principal acolhia, em outros tempos, o chá da  tarde e as moças namoradeiras, tanta canção afetuosa, recitação saudosa, ingênuas danças de outrora;

... o Dantinho Guarnieri pensando em tantos conterrâneos  ausentes que também teriam gostado de ver  o trem passar – até o simpático Wolfgang Sauer, seu amigo e presidente na Volkswagen, um alemão quase-colinense que assistiu missa na Matriz e encontrou refúgio e conforto do stress de São Bernardo na fazenda Nossa Senhora da Aparecida, ali pelos lados do antigo Matadouro, da qual chegou a ser sócio  por vários anos;

... ou lembrando, ainda, o Dante, do dia em que pegou o trem, então Dantinho mesmo, com 7 (sete!) anos, para ir levar, sozinho, uma encomenda urgente do pai a Ribeirão Preto, sem preocupações de segurança ou extravio, apesar da baldeação em Barrinha; voltou no mesmo dia, são e salvo;

... ou rememorando (haja memória; uma  memória dantesca!) o dia em que os russos chegaram[2] no trem, dezenas deles, sedentos e esfomeados,  sem eira nem beira, nem língua de gente, adultos e crianças esparramando-se em volta do posto de gasolina da família hospitaleira, os avós da Rosa Tichonyuk entre eles, até que veio um polaco do Frigorífico e descobriu que haviam descido na estação errada, duas antes de seu destino - uma fazenda vizinha de Barretos; ou de quando os que chegaram eram os japoneses, e não sabiam que deviam ir era pros lados de  Jaborandi, onde os Guarnieri foram depois comer (ou não-comer, horrorizados) peixe cru e feijão doce (cruiz-credo!) ofertados pelos nipônicos agradecidos pela acolhida interina em Colina;

... o Angelim se perguntando se de repente o trem não vai trazer pra Colina um magnata[3] de verdade; afinal, os primeiros magnatas   americanos, na acepção moderna do termo, estão associados à exploração cobiçosa, mesmo inescrupulosa, das ferrovias que expandiram o território dos EUA para o Oeste;

... o Beto Felice e a Paula registrando fatos e fotos, afanosamente, amassando  capim entre os dormentes,   pensando no trabalho que vai dar montar a primeira edição extra do “O Colinense”,  “ELE VOLTOU!” de manchete na primeira página, encabeçando foto de seis colunas tirada da altura dos trilhos pela Paula, a locomotiva imponente vindo em cima,  quase atropelando o leitor; na última página, o trem visto de trás, já tendo passado, e o título tranquilizante, “ELE VOLTARÁ!”; nas páginas de dentro, abundante publicidade comemorativa, que ninguém é de ferro, só o trem (e a ponte);

...o Doutor Adilson no meio do povo, que o assedia, não importa o dia, dando consulta séria de graça, à guisa de conselho fortuito;

... o Julio do bar da garagem, bebendo cerveja fora de casa, mas exigente, sempre: É de Agudos?

... o Doutor Cassiano, religioso e catequista determinado, lamentando não ter-se lembrado de trazer do consultório uns exemplares de seus livros cristãos para distribuir entre tanta gente reunida, à espera do trem - e carente de  Deus;

... a Paula, o Tô, o Marquinhos, o Guilherme, o Sérgio com o netinho novo agarrado, os Daher em formação completa, atendendo os convidados que chamaram para ver a festa das alturas altaneiras  da cobertura do Prédio, este engalanado por junqueiras, nogueiras, levantinos levantados e porqueiras adventícios, reverentes, todos, perante o comboio que se anuncia, como se fosse um antepassado comum;

... o Joãozinho Drubi não vai estar lá: ele deu uma mão de cal na varanda altiva da casa velha mas de arquitetura esguia e primorosa, singela e  fidalga  em seu desmazelo intrigante, e  que dizem que é dele, ali vizinha do “O Colinense” na esquina da linha com a Antenor Junqueira Franco, e montou rede lá, pra ver o trem passar bem de perto, balangando soberbamente, em companhia do filho olímpico;

... enquanto isso, eu, de cima da ponte, tento vê-lo na morada desmerecida, lembrando que a esquina é,  mais exatamente, da Av. Antenor Junqueira Franco com a Av. Pio de Mello Nogueira; será que a casa está assim porque Junqueira mais Nogueira também dá porqueira?[4]

... o Antonio Julio, degustando no prédio um bom tinto chileno (Carmenère?), orgulhoso dos netos espertos e precoces, e de sua estirpe seminal, dando receita para cruzamento certo de Junqueira das gerações presentes, um quarto de turco no sangue para vitalizar a bem-sucedida endogamia rural de mais de século;

... a Regina Junqueira proclamando a complementaridade mutuamente proveitosa, e  espontânea, de junqueiras e turcos - os levantinos levantados: a) nós juntamos as terras décadas afora, comprando, aprimorando, herdando, casando; b) quando falta dinheiro, e é preciso vender, eles estão sempre aí pra comprar; ainda bem!

... a Maria Emília, recordando as viagens do pai no trem pra São Paulo – o saudoso Dr. Alcides, médico diligente que me ajudou a ver a luz e aliviou as dores  de meu avô Urbano quando lhe faltaram as luzes, no leito da morte inevitável, ali na Pharmácia Santa Izabel; e  convocando, ela, Maria Emília,  as filhas solidárias para cunhar a pizza comemorativa da volta do trem, esperada e cobiçada – também a pizza - mas sempre esquiva, indócil; desta feita com a ajuda da amiga chilena que mora em São Carlos e faz vasos bonitos, com brancos japoneses,  e esmiúça minhas crônicas em busca degaffes desprimorosas para Colina, lendo o português como se fora de Castilla;   

... o Zé Cantídio se perguntando se o trem um dia vai poder levá-lo com mais conforto do que seu Toyota de estimação às  terras de Aracanguá, pelos trilhos seculares do ramal de Lussanvira,  a ligação original e ex-insalubre (o Zé Cantídio me disse que o pai do Dr. Alcides, próspero fazendeiro em Olímpia, chegou a ir ver e não quis saber de comprar terra lá: “Dá maleita até em pau”) da velha Noroeste do Brasil, entre Araçatuba e o rio Paraná, no rumo do Pantanal remoto, e da Bolívia,  ainda mais distante; será que vai ainda  poder viajar, como antes, seguro e relaxado, nos vagõespullman da Budd, em seus leitos-beliche  ou nas cabines “Marta Rocha”, aconchegantes como a Miss baiana universal em suas duas polegadas a mais?

... o Antônio anônimo (o Antônimo!), docolinaspaulo.blogspot.com, porta-voz da diáspora[5] colinense finalmente aparecido,  curioso mas ainda discreto e prudente – espreitando esperto em cima do muro, no lado de arriba da linha, e refletindo sobre se o trem não podia trazê-lo logo de volta, a ele, Antônimo, saudoso das raízes e precisado de sinonímia;

... o Nelsinho e o Dim antecipando os serviços a mais, de pintura e  pedreiro,  que a volta do trem vai trazer-lhes, para que ganhem ainda mais dinheiro - muito dinheiro, que eles não fazem por menos; o Nelsinho já prevendo, empreendedor e  cobiçoso, a reforma daquelas casas líricas perto da ponte, de pintura gasta e pálida como o tempo, cor ocre de poente  desbotado, perguntando a seus botões loquazes: será que ficaria bem aquela cor esquisita da casa do Embaixador, que a arquiteta venezuelana namorada dele escolheu, nome de bebida francesa, armagnac?

... o José Mauro Piai pensando na gente nova que virá, e que vai precisar de casa, pra alugar ou comprar,   já revirando pra cima suas tabelas de corretagem; será que vai conseguir vender aquela chácara secular no Patrimônio,  aquele terreno de esquina, na frente do lago? O Embaixador bem que queria comprar, só que não tem dinheiro;

... o Maringá meio preocupado: será que em suas tarefas de Secretário do Trânsito estará também o controle da circulação dos trens, em suas intersecções com as ruas e avenidas, com carros, caminhões, motos  e - oh, meu Deus! - as bicicletas colinenses, ariscas e rebeldes?; consolo é que trem jamais anda na contra-mão, a não ser de marcha a ré;

... o Jaci Salim Paro pensando em que a volta do trem vai exigir o reordenamento urbano da cidade; e se de repente dá pra levar os trilhos pra cima, pros lados da Fazenda do Governo, como o Dieb queria, que é que se vai fazer com a imensa área liberada onde os trilhos estão agora? Terra virgem, urbana e imobiliária, no meio de Colina! Eta desafio; e quanta oportunidade de urbanização modelar, visionária!

... e vou matutando, também eu, sonhador: tanto se fala em Turismo Rural, quem sabe montar ali uma fazenda-parque, simulando a vida rural através de  toda a História da cidade, e da região; dava até para armar e operar  um modelo de sítio antigo, com casa da sede, varanda com rede e plantas penduradas, pomar, galinheiro, chiqueiro, cavalos e burros de montaria, charrette, carroça e carro de boi,  um talhão de café, um roçado de milho, um pastinho com boi e vaca de leite, além de formigueiro de saúva, tatu, tamanduá,  a matinha com uns macacos travessos, umas cabrinhas, uns carneirinhos, um laguinho lânguido com patos e peixe, sapos e alguma capivara, umas cobras mansas, de exibição,  as casas da “colônia” fazendo de restaurante e lanchonete de  comida da roça; jabuticabeira bastante no pomar para a promoção na safra: não perca, inscreva-se antes e venha comer no pé! com direito a cavalgada até o Onça (ou mais perto), ou caminhada por trilhas a serem traçadas nos rumos mais pitorescos dos arredores colinenses -  um museu ao vivo, e vivo!; quem sabe até um teleférico pra levar turista até a Fazenda do Estado, que poderia ser como uma sucursal mais espaçosa do parque focal?

...   nome? Fazenda Paulista;

... mercado de visitantes potenciais, certamente que tem, e volumoso; o importante é apurar o conceito, nada a ver com hotel-fazenda, mais bem um parque aberto e ameno de visitação e entretenimento, relaxante e didático, uma disneylândia rural...; imaginou a alegria da criançada capitalina, que nunca viu galinha, nem porco, nem cabrito, a não ser na TV e em história de quadrinhos, que já não sabe o que é paçoca, pé-de moleque, doce de cidra, cocada branca e preta!; a ideia é tão atraente que até dá pra pensar em fazer em outra parte, de Colina ou Jaborandi,  sem ter de tirar trem e trilho para abrir espaço; concorreria com as termas de Olímpia, a festa do peão de Barretos...

... quem sabe até, como parte do pacote turístico, armar um trem especial de passageiros, com vagões “pullman” panorâmicos, restaurante, leitos, cabinas, etc., pra trazer turista de São Paulo (e do Rio, e do Brasil, e do mundo!) até dentro da disneylandia colinense; o risco seria a viagem de  trem fazer ainda mais sucesso que a Fazenda Paulista...

... se isso não for possível, talvez, plantar ali, no lugar dos trilhos, um magno jardim botânico, restaurador e  guardador da flora ainda dos princípios do  Século XX, centro de pesquisa séria, padrão ecológico, palco esplêndido, eventualmente,  para a Faculdade da Terra de Colina?

... vai ficar tão bom e movimentado que de repente a gente até tem de trazer os trilhos de volta, pra por bonde correndo neles...

... em meio à confusão, sempre amável e ameno – e convincente -, o Augusto Cury pensa com seus botões, incontáveis e sensíveis como seus milhões de leitores de autor brasileiro mais lido no Brasil: o ser humano se adapta a tudo, até ao caos, que bonito uma cidade inteira que não renuncia a seus sonhos, não abre mão da felicidade, que é capaz de ver o passado na vitrina de vidro a fim de caminhar com prumo  no futuro, pois o destino é uma questão de escolha, nada tem de casual; e cismando sobre como combinam (ou não!), sua frase de que “não é possível destruir o passado para reconstruir o presente, mas é possível reconstruir o presente para reescrever o passado”, com aquela outra do Big Brother, de George Orwell, em “1984”, que aparece citada em crônica do Embaixador[6]:“Os fatos do passado não têm existência objetiva”; mediante a adulteração sistemática de sua memória (que é onde existem), pode-se chegar ao  totalitário petulante e absoluto, retrospectivo e eterno: “Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”; o Embaixador deu tratos à bola, intrigado,  mas não conseguiu mais entender  o Orwell, à luz da inspirada e misteriosa frase do filósofo colinense;

... a meio-caminho do horizonte, lá pela placa heráldica do Km 427, o pessoal do clube hípico e do projeto de equitação educativa, Liu enérgico à frente,  segurando  cavaleiros e cavalos ansiosos para formar escolta ao trem no quilômetro derradeiro de sua viagem triunfal, a lado e outro dos trilhos ressurretos – aComitiva do Trem de Novo, que vai depois repetir-se, todos os anos, no aniversário do retorno benfazejo;

... o pessoal do Clube de Polo, a Regina, Presidente, Junqueira e cavaleira à crista,  formando 4 por 4 na relva verde do lado de cima da linha, a tempo aparada ali na frente da estação,  a fim de prestar homenagem garbosa, cavalos e cavaleiros, tacos em continência,  ao trem de Colina –  preito de glória para glória, passada e presente; a Regina se dando conta de que bem que poderia ter trazido a taça da vitória de Colina, em 1931, sobre “Los Caranchos” argentinos, os globetrotters do polo; mas por onde anda a taça? será que o trem se lembra?

... o Ronaldo e o Tutu imaginando como teriam organizado a festa se o trem tivesse deixado pra passar só daqui a quatro anos;

... avôs e avós, pais e filhos, explicando a filhos e netos o por quê da festa, o que é o trem - o que é o trem de ColinaQuem sabe alertando as crianças para o perigo das fagulhas traquinas, certeiras no olho da gente?

A vapor ou diesel-elétrica, a locomotiva? De passageiros ou de carga, o trem? Não importa.

O que vem lá, vindo dos lados de Mandembo e Perobal,  deslisando sobre os trilhos de novo vibrantes  e os dormentes recém-despertos, é o trem icônico de Colina, a caminho do  Palmar, do Frigorífico, de Barretos, Colômbia, do Rio Grande.

Vindo dos lados de Mandembo, o dia em que o trem voltar... Vou estar em cima da ponte, copo de cerveja na mão, para celebrar.

E também cogitar:

1)  O presente é fugaz, o futuro incerto. Só o passado é constante e confiável;



2)  Saudade não é sentir falta do passado, bom ou mau,  mas sim a angústia de não poder revivê-lo;



3)  Memórias são o passado em conserva, servido a gosto;



4)  Fantasiar o futuro é como provocá-lo, atiçando o mistério do por vir; pena é que o resultado vem a prazo, e aí a gente já esqueceu o sonho.



5)  Diante do inelutável, não há o que falar; é só curvar, aceitar e calar (pensamento à beira do túmulo de  meu pai);



6)  Sentido de humor é bom, faz até bem à saúde. Mas só vale mesmo quando é pra rir dos outros; rirem da gente é sempre brincadeira de mau gosto;



7)  A suprema vaidade está em não levar-se a sério.

Devaneios...

Por sinal, proponho-me percorrer, a pé,  a linha da Paulista, o que der na direção de Bebedouro,  a fim de  checar se tudo está perfeito para  quando o trem passar – um dia. Um gesto também simbólico, quiçá propiciatório ([7]). Há quem queira acompanhar-me?





[1] V. Colinenses no. 34  , e “O Colinense” de 21 de fevereiro de 2013.




[2]A frase  “o dia em que os russos chegaram” lembra  o título de um livro muito lido na Guerra Fria, que deu até filme. Conta a estória de um submarino soviético que encalhou na costa Oeste americana, e da amistosa “guerra” de seus tripulantes com a população  de pequena aldeia local – um exercício de divertida  ironia em torno da confrontação insana entre o preconceito político e o  sentimento humano.




[3] V. Colinenses no. 40.


[4] Para quem não é de Colina, vale esclarecer: na cidade se diz, desde sempre, que quem não é Junqueira, nem Nogueira, é porqueira. Em alternativa à terceira categoria, também se admite o vocábulo tranqueira.


[5] A palavra, na origem associada ao povo judeu,  se aplica hoje à dispersão de qualquer povo, por qualquer motivo, fora de seus limites naturais. E a diáspora colinense é ampla, bastante organizada e invariavelmente leal às origens, que cultiva e exalta com alarde em toda parte, ante o gentio intrigado. 


[6] “Marcha Soldado – direita pra dentro, esquerda pra fora”, obra meio delicada, em potencial politicamente incorreta, e  ainda inédita,  à espera de nihil obstat do próprio autor. Auto-censura...


[7] Fui conferir no Houaiss: Propiciatório:  fórmula ou reza que torna um deus propício. Propício: que dá indícios de algo bom, que gera esperança; auspicioso, encorajador


SOBRE O AUTOR:


Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.


É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009

Para contatos, usar o endereço de e-mail rpguimar@gmail.com
Aberto às suas opiniões, sugestões, etc...

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