sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses no. 29 - Pingue-pongue - crônica do Emb. Renato Prado Guimarães





Pingue-pongue



As duas crônicas anteriores foram das primeiras Colinenses escritas. Mas tardaram em ser divulgadas no blogue, a ponto de que acabei fazendo eu próprio a escolha. Consultei e conversei sobre todas as hipóteses, cheguei a encomendar uma Schnauzer gigante em Brasília, mas acabei voltando ao canil onde havia adquirido o Bingo II, em Cotia, 14 anos atrás.



Na hora de escolher, estabeleceu-se a dúvida entre dois irmãos da mesma ninhada, de schnauzers de tamanho médio (35 cm de altura, adulto): um elétrico, saltitante, menorzinho e mais claro; o outro, o oposto exato, maior, mais escuro,  com temperamento mais reservado, quase solene. A dona do canil tirou proveito da dúvida geral, com respeito à escolha, e empurrou os dois, fazendo preço muito bom pelo segundo. Caí nessa, para imenso contentamento da filha e da neta que me acompanhavam. Minhas outras filhas, no Rio, parece que pularam meia hora de alegria ao receberem as primeiras fotos da dupla inesperada.



 Comprei, pois, não só um, mas dois cachorros pra Colina!. Em alusão aos Bingos anteriores, pensei em chamar, a um Bingo, e ao outro Bongo.  Mas logo me ocorreu outra solução, mais esportiva : um vai ser  Pingue, o outro Pongue.



Trouxe-os de Cotia de carro: muito comportados, nenhum ganido, nenhum latido. Em casa, demorei igualmente a ouvir sua voz. Parecem pouco sonoros. Não fazem barulho e também o detestam. Pois não é que, logo ao chegarem, quando lhes apresentava seus novos domínios, passa em frente de casa um daqueles arautos tonitruantes que poluem a cidade, espalhando decibéis a torto e a direito, e ambos saem em disparada, de medo, para se refugiarem de volta na jaula-gaiola em que os havia transportado... (Por sinal, quando é que chega o decibelímetro?).



O schnauzer é cão de guarda e companhia; há levantamentos que o mostram como o quarto melhor cão de guarda dentre todas as raças, alerta sempre, vigoroso no latir, singularmente corajoso e disposto a empregar seus dentes afiados na defesa de seu território – e o dos donos. Dizem que muitos canis estão deformando a linhagem, contudo, selecionando a descendência em direção mais à companhia do que para a guarda, em busca de cães “sociais”.  Os meus, no entanto, revelam um precoce e atávico viés para a guarda: estavam dormindo no quintal, veio um pássaro de certo vulto em voo rasante. Estava prestes a aterrissar quando um ligeiro rufar de asas chamou a atenção dos  cãezinhos, que de imediato acordaram e latiram exatamente ao mesmo tempo e na mesma estridência, em dueto alerta e fraterno – além de afinado -, postura de ataque assumida num relance. A ave intrusa teve que abortar o pouso e arremeter, acabou confundindo-se ao esquivar uma coluna, mas recuperou sustentação em tempo e ganhou novamente os céus. Será que volta? De resto, os cãezinhos, desde cedo leais,  já me assumiram como dono a proteger e preservar: ninguém  pode chegar perto que rosnam, latem e ameaçam, sobretudo o Pongue, dentes ainda minúsculos à mostra...



Não por menos houve tempo em que a polícia alemã adotou o schnauzer em substituição ao “pastor alemão” (que no Brasil chamávamos mesmo “cão policial”), degenerado no curso de cruzamentos que valorizavam o lado estético das proles, deixando em segundo plano o aprimoramento de sua força, inteligência e valentia.


























                            O Pingue é gozador, o Pongue severo




SOBRE O AUTOR:

Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.

É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009.
Para contatos, usar o endereço de e-mail rpguimar@gmail.com

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