sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses no. 27 - Cachorro pra Colina - crônica do Emb. Renato Prado Guimarães



Cachorro pra Colina

Que raça de cachorro me aconselham  ter em Colina? Quero comprar um animal de companhia e guarda, mas estou na dúvida sobre a raça, ou sobre se não é melhor tê-lo sem raça nenhuma, do ecumênico gênero vira-lata.

Tive quatro cachorros na vida, a saber:

1) o Gabi, esquecido pelos proprietários anteriores na casa que meus pais compraram na Vila Uberabinha, em São Paulo, onde hoje é chique morar mas se chama Moema.  Vira-lata da mais pura estirpe, com traços de fox-terrier, um possível precursor dos “paulistinhas” agora muito em voga. Animal admirável, valente e leal, ao qual a família deve o privilégio de ter vivido  na única residência não assaltada no bairro, durante os muitos anos em que lá esteve. O cãozinho nem era afetuoso; muito ensimesmado e meio mal-humorado, nem se deixava tocar. Era de guarda mas não de companhia. Que ninguém se aproximasse  da casa ou de qualquer membro da família. Armava um escarcéu pra ninguém botar defeito, e sua ferocidade nanica assustava todo mundo. Quando mudamos para apartamento, meu pai levou-o para o sítio e lá deixou-se morrer, solitário e esquecido, sem ter a quem proteger.  A família sempre carregou um sentimento de culpa por não ter-lhe dado mais atenção em seus anos derradeiros;



2) o Hércules, um misto de dinamarquês e vira-latas, enorme e muito burro, presente de um amigo do bairro. Dependia do Gabi e era ridículo aquele cachorrão acompanhar o pequenininho em tudo, obedecendo-lhe cegamente, um verdadeiro escravo canino. Nunca consegui educá-lo. Inconformada com  o trabalho que dava, e a sujeira que fazia, minha mãe o presenteou  a um verdureiro, que se ocupou de dar-lhe sumiço. Qual? Não sei e nunca procurei saber. Não deixou saudades na família, salvo no dono imediato, eu menino;



3) o Bingo, que comprei  já em idade adulta (eu, não o cachorro), quando estava em Caracas. Era um schnauzer (aquele cãozinho preto do “Black & White”), mas da variedade gigante. Saiu um animal muito bonito, muito afetuoso, fortíssimo, bigodudo e ... incontrolável. No folclore da família se conta que se atirou um dia na piscina, para salvar a Renata, minha filha do meio, que se estaria afogando. Quando o levava a passear, não conseguia segurá-lo; era ele quem me arrastava pela corrente, Calle Altamira abaixo - e também acima. Quando deixei a Venezuela, tive de confiá-lo a um amigo. Não tive notícias depois;



4) o Bingo II, um schnauzer de porte médio (mais próximo do rótulo do whisky), que comprei quando morava em apartamento, em São Paulo. Perfeita reprodução, em menor, de seu predecessor.   Ficou com uma sobrinha, quando mudei para a Europa, foi muito querido, sua morte muito sofrida. No final, andava neurastênico, avançando em todo mundo, salvo uns poucos eleitos que poupava. Lembrou-se sempre de mim mas tirou sangue do pé de minha mulher.



Voltando a Colina, que cachorro escolher aqui? Cheguei a considerar trazer da Alemanha exemplar de uma raça  meio aparentada minha: o weimaraner (esse nome equivale a “vimaranense”, toponímico de  Guimarães, que  é um nome de origem alemã - mas isso é outra estória). Raça nobre, desenvolvida no Século XVIII pela Corte de Weimar, na Saxônia, para ajudar na caça às aves nos alagados em torno da cidade, olhos claros, esverdeados, pelagem do cinza ao mel, avantajado, tem até cartilagem entre os dedos, como os patos, para nadar melhor. Mas soube depois que a espécie está sujeita a umas tantas perturbações psicológicas (mal de família?), e desisti.



 Agora, estou inclinado a voltar ao schnauzer, cuja imagem barbuda seria um aperitivo saboroso para meu whiskyfavorito. Ele figura entre as dez raças mais inteligentes e seria o quarto melhor cão de guarda na classificação internacional. Com relação ao gigante, em algum lugar li (não sei onde; procurei, procurei, mas não consegui reler e confirmar) que, ao contrário da maioria dos cães de grande porte, que está associada ao pastoreio de bovinos e ovinos (ou à tração na neve), o schnauzer era ligado aos cavalos, correndo a sua frente e a seu lado, e das carruagens, em tempos antigos,   protegendo  passageiros e animais  do ataque dos lobos e outras feras nas florestas. Um site na web fala do cachorro como vigilante (”supervisor”) de cavalos, desde o Século XV residente habitual das estrebarias equinas, não dos estábulos de bois, vacas, ovelhas etc. Isso aí justificaria mais ainda sua escolha na Capital Nacional do Cavalo. Imaginaram um belo schnauzer, na próxima cavalhada, lado a lado com seus protegidos? Ou, mesmo, um par deles?



Repito a pergunta: qual seria o melhor cachorro para Colina? Aguardo sugestões.



SOBRE O AUTOR:

Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.

É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009.
Para contatos, usar o endereço de e-mail rpguimar@gmail.com


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