sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses no. 59 - Distâncias terminais - crônica do Emb Renato Prado Guimarães


Distâncias terminais

            Cito a mim próprio, das palavras finais de Frankfurt e da crônica inaugural destas Colinenses (“Vou-me Embora pra Colina!”):

                    “A família me pergunta, 

                    preocupada: sua saúde, quem vai
                    cuidar dela?...logo respondo: três 
                    centros médicos universitários de 
                    relevância estão perto de Colina,
                    Ribeirão Preto a uma hora, Rio 
                    Preto a 40 minutos, Uberaba a 
                    hora e vinte. Campinas está a 3 
                    horas, São Paulo a 4. Barretos, que
                    é referência nacional para certas 
                    especialidades, está a 10 minutos. 
                    Além disso, em Colina, no mesmo 
                    quarteirão, em frente, moram dois
                    excelentes médicos, o pronto-
                    socorro está a 100 metros, o 
                    Hospital da cidade a 150. Se isso
                    não bastasse, a 800 metros está o 
                    Cemitério. Dá pra ir a pé”.

           Já se riu muito dessa frase final do parágrafo aí citado. Aproveito para confessar o plágio: a frase é de meu pai, respondendo a pergunta sobre quão longe ficava, jazigo que havia comprado em cemitério de São Paulo, do túmulo de meu tio Octávio, antes falecido. Ele respondeu justamente que era tão perto que dava para trocarem fraternas visitas a pé - “walking distance”. Plágio de pai pra filho, benigno e perdoável...
           As distâncias mencionadas na citação foram inventadas na hora, claro. Meros chutes de primeira em meu afã de justificar a mudança para Colina, perante meus amigos de Frankfurt - menos tristes, aliás, com minha inesperada partida, do que ofendidos pelo abandono repentino.
          
          Outro dia, deu-me na telha checar a precisão daqueles impensados pontapés na bola. Concluí que o mais preciso foi o chute pro Cemitério. O que não é de surpreender: na minha idade, o destino, inelutável, se vê mais de perto. Ademais, por alguma razão o Cemitério está na ponta de minha rua, é bem verdade que com uma curva amena, demorada, bem perto do fim (haverá algum simbolismo (1) nisso?). 
           Numa de minhas caminhadas anotei: o último número da rua é o 901. Mas dali ainda há que percorrer a tal curva, em que estão agora fazendo terraplanagem, e depois atravessar a linha da Paulista (sim, da Paulista; que ninguém venha me falar que é de uma tal de ALL, mais anônima do que o sem-nome em minha lembrança afetiva!), e ainda caminhar uns 200 metros até o portão, conforme medi, outro dia, no odômetro do meu carro. 
          Ergo, 901-318+200= 783. Ou sejam, traduzindo a equação, 901 do último número da rua, menos 318, o número de minha casa, mais 200 do trajeto derradeiro, igual a 783 m.
           Bingo! O desvio técnico, para os 800 metros de meu chute, é de meros 2,25% . Nem os institutos de pesquisa, que também chutam muito, conseguiriam melhor.            
            É bem verdade que minha conta vai até o portão de trás do Cemitério. Como não ficaria bem entrar pelos fundos, haveria que tomar em consideração os cerca de 200 metros até a entrada da frente, o que elevaria a distância a 983 metros. Erro maior, mas de qualquer forma irrelevante ante as distâncias imensuráveis da dimensão póstuma, contadas a partir dali mesmo, do destino (ou de outro começo?). 
           Se estamos medindo as distâncias métricas, por que não verificar também os tempos viários que chutei para os deslocamentos até cidades próximas?
           Ribeirão não está a uma hora: eu, mais pra Barrichello que pra Senna, tenho precisado de hora e meia – isso se acertar de primeira a entrada pro Aeroporto, onde costumo ir apanhar minhas filhas do Rio. 
           Rio Preto? Meus 40 minutos do chute de Frankfurt, nem o Senna, e de Fórmula 1, pois tem muito buraco e obra na estrada, e um trânsito pra todo mundo botar defeito, sobretudo na tal Armando de Salles Oliveira (que sempre pensei ser Salles de Oliveira, o aliado dos Mesquita no “Estadão”, e que li, outro dia – surpresa! –, foi co-fundador do Clube Hípico de Colina!). Em vez disso, Rio Preto, e seus restaurantes supimpa, suas clínicas respeitadas, estão bem a uma hora e vinte, de acordo com minha experiência. Mas vale a pena!
            
           Uberaba a hora e vinte? Acho que nem em duas dá para chegar lá; e isso se não for por aquela estrada (?) entre Volta Grande e Guaíra, o buraco no mapa (Colinense no. 24), pois se cair nela, e quiser correr, é meio como fazer aqueles 800 metros sem barreiras, rasos, rasos, para o Cemitério; é por o pé na tábua e afundá-lo na cova (2)! Mas dizem agora que vão recapear a estrada desaparecida: aí quem sabe se possa fazer o trajeto em menos de duas horas, sem ser o Ayrton (3), ou até o Barrichello. 
           Barretos em dez minutos, acho que dá pra fazer, se tiver “Sem Parar” pro pedágio e só até o Frigorífico... Ou à Fundação Pio XII, a brilhante referência nacional a que aludo na citação lá de cima. 
           São Paulo em 4 horas! À luz da experiência de minhas excessivamente assíduas viagens a São Paulo, costumo dizer, a quem me faz aquela pergunta trivial, de quem quer jogar conversa fora porque você não é de dentro: Ora, quanto leva de Colina a São Paulo? Leva umas cinco a seis horas, nove pedágios e três multas! 
          Essa a distância real, verdadeira, incontornável, para os 405 km que nos ligam (ou separam) da Pauliceia condenada. Sem contar, decerto, a entrada na Capital: dependendo da hora, do dia, e do humor da metrópole neurótica - e neurotizante -, de meia hora a hora e meia, duas, mesmo, até um bairro central, como a Aclimação. 
          O Cemitério está mais perto! 
          E não é você quem vai pagar as multas do caminho. 

1) Em Almanaque do Turismo Rural em Colina, presente do amigo Ronaldo Daher, encontro esta expressão popular, própria da cidade e jocosamente macabra: “Descer a Sete”. Precisa explicar? Para quem não tem o privilégio de ser de Colina, esclareço: a Rua Sete de Setembro também dá no Cemitério, que na cidade é igualmente conhecido como "a terra dos pé junto".

2) Aqui cabe, do mesmo Almanaque, aquela frase colinense de obstinada rebeldia - vou, mas “com os carcanhá pra lá”.

3) Para-choque de caminhão: Mais vale chegar atrasado neste mundo, que adiantado no outro.

SOBRE O AUTOR:


Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.

É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009

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