sexta-feira, 20 de maio de 2011

Colinenses nº 2: Volta sem ida - crônica do Emb. Renato Prado Guimarães




Volta sem ida

                  Na verdade, eu nunca morei em Colina. Nasci aqui, na casa de meus avós maternos, na Pharmácia Santa Izabel, mas meus pais viviam em Barretos, onde o bebê primogênito foi morar. Tinha 5 anos e uma irmã, Ana Maria, barretense, quando a família mudou para São Paulo; a segunda irmã, Hilda Maria, nasceria na Capital, em 1948.
                 Não morei em Colina mas tive com ela vínculos importantes, além do elo inaugural, natalício. Aqui passei muitas férias da escola, na casa de minha vó Cotinha (o apelido modesto escondia nome heráldico e sonoro, Maria Franco da Silva Prado), ou da tia Wanda (Prado Nogueira). Fiz muito footing na praça da Matriz, pulei carnaval no Grêmio, ali na esquina da praça, namorei umas primas distantes, fui a cavalo nadar numa piscina cavada na terra, bem adiante do antigo Matadouro, no meio de um taquaral gigantesco. 
                 Lutei até box, numa empreitada avulsa de meu tio Antonio Olinto, a fim de ajudar uns profissionais decadentes que vinham da Capital para ensinar o esporte e ganhar um dinheirinho. O adversário foi um menino de minha idade, cujo nome soava assim como "Raghi". Alguém conhece? Deve ser hoje setentão, como eu. Deu empate - imerecido, pois ele foi melhor na luta amistosa.
                 Nos diversos períodos em que morei em Brasília (1961/1963, 1972/1979, 1985/1988), em toda viagem a São Paulo não deixava de passar pela cidade, para visitar o túmulo de meu avô, Urbano Prado, e ir dar um dedo de prosa com o Fiore, tentando convencê-lo a vender-me as majestosas estantes da pharmácia, na origem encomendadas e adquiridas por meu avô – relíquias da família, por conseguinte. Jamais o convenci; quando os herdeiros quiseram vender, eu estava na Europa, sem espaço e pé-direito para abrigá-las. Agora, nem ousei perguntar ao Paulinho Frigoni se venderia; tenho espaço e pé direito, mas falta o dinheiro.
                   Quando servi em São Paulo, instalando o Escritório de Representação do Itamaraty (uma espécie de Embaixada interna), tive contatos com a Prefeitura e o Prefeito de então, meu amigo Diab Taha, e sua mulher, Lilian. Vim diversas vezes, trouxe minha mulher alemã e dois enteados. Almocei com eles no restaurante da Elvira.
                   Quando, na Alemanha, me dei conta de que era tempo de voltar ao Brasil, percebi que minha relutância com relação a essa mudança, crucial, vinha sobretudo da perspectiva de ir morar em São Paulo, Capital. A Pauliceia onde fui criado, estudei, trabalhei, casei e nasceu minha primeira filha, que admiro e quero mas onde acho impraticável morar hoje em dia (cheguei a ver na cidade alguns sinais alvissareiros de melhora, que até pus em crônica, no blogue de Frankfurt, mas, definitivamente, não dá mais pra morar lá). Amigos sugeriram: por que você não vai para cidades como Campinas, Sorocaba, Ribeirão, onde poderá viver com mais tranquilidade e até ensinar nas Universidades?
                   Não me agradou a ideia; essas cidades médias e grandes começam a sofrer de dois lados. Num processo de duas mãos, perverso e acelerado, vão ganhando as desvantagens da Capital e perdendo as vantagens do interior. Foi aí que me deu o estalo: a ir para o interior, por que não radicalizar e voltar literalmente às raízes?
                   Colina!
                   Fiz duas viagens precursoras à cidade, antes de decidir de vez o grande salto.
                   Da primeira vez, estranhei a indiferença com que a cidade me recebia. Ninguém notava que eu era de fora – ou pelo menos não dava sinal disso. Curiosidade apenas ocasional, aqui e ali. Esnobismo ante o forasteiro? Sei lá. Mas logo interpretei essa impassibilidade como um sinal positivo, embora sutil: se a cidade não me notava, ela não me considerava um adventício, um intruso. Era uma maneira elegante de receber o forasteiro, fazendo-o sentir-se em casa, hospitalidade inteligente e fidalga. No aparente esnobismo de sua gente vi prova de minha identidade colinense. Quando alguém ocasionalmente perguntava de onde eu era, bastava apontar para a praça da Matriz e proclamar, sonoro e altivo: Eu nasci ali, na Pharmácia Santa Izabel. Não precisava explicar mais. Ninguém jamais contestou minha qualidade nata de colinense.
                 Tudo isso para tentar ilustrar o paradoxo em que vivo, perplexo. Andei pelos cinco Continentes, décadas de minha vida, vivi em nove países, morei em dez cidades estrangeiras e jamais em Colina; no entanto, retorno à cidade em que nasci com o sentimento estranho de que dela nunca saí.
                 Muito se usa a imagem das idas sem volta - dos movimentos sem retorno na vida, definitivos. Em meu caso, singular, foi uma volta sem ida!
                 Raízes!



SOBRE O AUTOR:

Renato Prado Guimarães nasceu em Colina, Estado de São Paulo.
Começou a carreira profissional como jornalista, nas “Folhas” e no “O Estado de S. Paulo”; paralelamente, formou-se na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco.Diplomata desde 1963, foi Secretário de Embaixada em Bruxelas e Bogotá, Chefe do Escritório Comercial do Brasil nos EUA, Cônsul Geral ad interim em Nova York, Ministro-Conselheiro na Embaixada em Washington e Encarregado de Negócios junto aos EUA, ad ínterim.Promovido a
Embaixador em 1987, exerceu aquela função na Venezuela, no Uruguai e na Austrália (cumulativamente, também na Nova Zelândia e em Papua-Nova Guiné). Foi igualmente Cônsul-Geral do Brasil em Frankfurt, na Alemanha, e em Tóquio, no Japão.
No Brasil, foi Chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial, porta-voz do Itamaraty na gestão Olavo Setúbal e Chefe do Gabinete do Ministro Abreu Sodré; fora de Brasília, foi Chefe do Escritório do Ministério das Relações Exteriores em São Paulo – ERESP, que instalou.Aposentou-se em abril de 2.008. Reside atualmente em Colina, sua terra natal, interior de São Paulo, Brasil.

É o autor de “Crônicas do Inesperado”, lançado em outubro de 2.009.
Para contatos, usar o endereço de e-mail rpguimar@gmail.com


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