domingo, 16 de setembro de 2012

A VENDA DOS ZAPELLA - Luiz e Guilhermina. por Fatima Zapella

Fazenda Retiro: Escola Mista


A VENDA DOS ZAPELLA - Luiz e Guilhermina.
por Fatima Zapella



A Venda ficava na Fazenda Retiro, na beira da estrada de terra que ligava Colina a Monte Azul. O movimento era grande, porque morava bastante gente na colônia da Fazenda Retiro, e vinha gente das fazendas vizinhas também. Na Venda tinha de tudo um pouco: mantimentos, alpargatas, panelas, botinas, fumo de corda, doces... Meu avô passou ali mais da metade de sua vida (acredito que desde a década de 40) e de lá tirou o sustento da sua grande família, de 13 filhos.
A venda fazia parte da casa. Acredito que meu avô morava lá em regime de comodato; nunca soube que houvesse compensação financeira de nenhuma das partes: era vantajoso para a Fazenda ter o comércio que abastecesse os colonos, e para o Zapella ter moradia e fonte de renda.
Havia um campo de bocha em frente à venda e, nos domingos à tarde, tinha jogo de tômbola e baralho. Tenho lembranças muito esparsas, mas sempre da venda cheia de gente, com muito falatório, risadas, brincadeiras. Era um lugar alegre.
Aos poucos, com as mudanças na agricultura, a necessidade das colônias foi acabando, surgiram os bóias frias, e o movimento da venda foi diminuindo.
Meu avô e o tio Vate criaram calos nos cotovelos, e os calos chegaram a inflamar, de tanto ficarem debruçados no balcão, à espera dos esparsos fregueses.
Eu nasci lá, em 1957, num quarto "pegado" ao cômodo onde funcionava a venda. Meus pais (Rubens Zapella e Rosa Arduino) moraram lá um tempo desde que se casaram - de 1955 a 1957. Na adolescência eu ia sempre nas férias (já morava em São Paulo) e a casa sempre estava cheia.
Duas coisas váo estar sempre associadas àquela casa: sopa de feijão (todos os dias no jantar, muito, mas muito gostosa!) e uma limpeza de dar até raiva. O terreiro era varrido até não sobrar uma folhinha, e os tapetes, todos, apesar de toda aquela terra vermelha, eram branquíssimos!
Também me lembro do pé de seriguela e das paineiras - ao pé de uma delas foram celebradas as Bodas de Ouro dos meus avós, em 1974.
Lá ainda moraram outros familiares: o tio Vate (Osvaldo Zapella) e a mulher, tia Idinha, que não tiveram filhos e sempre moraram com o vovô Luiz e a vovó Guilhermina.
Antes de nós moraram lá o tio Alexandre (irmão do vovô) com a mulher, Aurélia Soldeira, e o tio Nadi (Arnaldo Zapella), irmão do meu pai, com a esposa, Linda. Além deles, a nona Pierina, que morreu em 1969, com 82 anos. Quem sempre trabalhou na venda foram o vovô, meu pai (até se mudar de lá) e tio Vate. Os outros ajudavam aos domingos.
A Fazenda Retiro acabou - foi dividida entre os filhos do Nenê Junqueira, a venda por fim fechou, e meu avô se mudou pra Colina no começo da década de 80, onde morreu, em 1984.

A respeito da narrativa escreveu o Embaixador Renato Prado Guimarães:


"Gostei muito. Narrativa singela, sensível e sensibilizadora. Gerações e gerações girando ao redor da venda da estrada,  suporte e referência familiar por décadas e décadas! Que saga! Dá romance, Fátima!".