domingo, 5 de fevereiro de 2012

O caminho de Goiás

o caminho de Goiás se transformou na Via Anhanguera

De que maneira o processo de ocupação do norte/nordeste do território paulista, no contexto da colonização do Brasil, explica a ocupação da região onde hoje está o município de Colina? O que existia nessa região antes de surgir a vila? Como se deu a ocupação deste território, que interesses moviam os primeiros colonos que aqui se fixaram? Quem eram, como chegaram e onde se fixaram os primeiros migrantes e os primeiros imigrantes?"

Sempre tivemos curiosidade em pesquisar a história de Colina antes da história oficial, que começa com José Venâncio Dias loteando as terras onde viria a ser a cidade.
Assim, graças a pesquisas e aos recursos da Internet, chegamos a quatro estágios:
1) O Sertão de Araraquara - habitado pelo índio Caiapó
2) O Caminho dos Goiases - antigo caminho indígena que avançava pelo noroeste paulista e que deu origem a várias cidades da região.
3) Os entrantes mineiros que chegaram à nossa região no começo do século XIX, via Franca e Batatais, estabelecendo-se inicialmente em Morro Agudo, numa grande gleba de terras que incluía onde hoje está o município de Colina... A ocupação da região se dá, nesta ordem: Franca, Batatais, Morro Agudo, Barretos e Colina.
Nota: Morro Agudo foi desmembrado do Município de Batatais.
4) a chegada dos imigrantes, italianos, portugueses, principalmente e sírio-libaneses, espanhóis e todas as outras nacionalidades que para cá imigraram. Esta parte será pesquisada oportunamente, pois é bastante extensa.
Já publicamos duas postagens: Os entrantes mineiros e O Sertão de Araraquara e agora esta: O Caminho dos Goiases
Em complemento a estas postagens, criamos páginas (acima) com histórias de outras cidades ligadas à nossa Colina: Barretos e Batatais.
Foi uma extensa bibliografia pesquisada (também citada numa das páginas acima).
Enquanto pesquisávamos, fomos nos deparando com tudo o que já tinha sido publicado sobre Colina na Internet (o Google é milagroso!) e resolvemos reunir neste blog tudo o que encontramos, inclusive as fotos antigas e atuais, além de nos basearmos em livros escritos sobre Colina, citados na postagem Livros sobre Colina.

Nunca foi, não é e nunca será nossa pretensão esgotarmos o assunto, mesmo porque a contribuição de todos é necessária para registrarmos muitos outros fatos e histórias que ainda não vieram à tona. Para isso contamos com todos os interessados na história e na realidade colinense.
Por isso também, não há um nome ligado a este blog, que é o resultado da colaboração de todos...
Estamos e estaremos sempre abertos a quaisquer esclarecimentos, dúvidas, sugestões, críticas, colaborações, correções que se fizerem necessárias.

Nota: o material para esta postagem foi pesquisado na Internet. Se você possuir direitos autorais do que é divulgado e não desejar ver mais publicado, é só deixar um comentário com contato que logo retiraremos do ar...

O CAMINHO DE GOIÁS:
Ao término do século XVI, entre 1594 e 1599, os Afonso Sardinha (pai e filho) e João do Prado alcançaram as margens do Jeticaí, hoje Rio Grande. Nessa marcha, provavelmente atravessaram a "Paragem dos Batatais", então habitada pelo "gentio caiapó". A região foi também visitada por Bartolomeu Bueno da Silva, o "Anhanguera", quando saiu em busca do ouro de Vila Boa (Goiás), por ele
mesmo descoberto em 1725. A partir de então, as veredas abertas pelos pés aborígines se tornaram o Caminho dos Guaiases.
Ante a notícia do ouro goiano, descoberto pelo Anhanguera, o local atraiu generalizada atenção e muita gente demandou a Vila Boa. Surgiram, então, prósperas fazendas no "Caminho dos Guaiases", concedidas em sesmarias, a título de legitimação possessória de terras já trabalhadas e também sob a alegação de conveniência, para os mineiros, de melhor estabelecimento das minas. O caminho logo se pontilhou de fazendas pertencentes a paulistas, em sua maioria oriundos de São Paulo, Itú, Santos e São Vicente. A esses pioneiros se juntaram elementos vindos de Minas Gerais. Em busca de índios, para serem vendidos como escravos, e de ouro, grupos de homens originários da Vila de São Paulo de Piratininga (atual São Paulo), conhecidos como “paulistas” ou bandeirantes, começaram a desbravar o interior do Estado. Chegavam de surpresa, atacavam as aldeias dos índios ou os chamavam para luta aberta nos descampados. Dispondo de armas de fogo e ajudados por outros índios, seus aliados, prenderam milhares de índios Caiapós, obrigando as populações remanescentes a deixarem esta região.
Um destes bandeirantes que saíram para o sertão em busca de ouro foi Bartolomeu Bueno da Silva, apelidado pelos índios de Anhanguera, que quer dizer “diabo velho”. Ele descobriu pepitas de ouro na terra dos índios Goiases por volta de 1670, mas morreu logo em seguida.
Um filho deste bandeirante, que tinha o mesmo nome do pai, e que por isso ficou conhecido por Anhanguera II, voltou ao sertão e redescobriu as famosas minas em 1722 e notificou oficialmente a capitania de São Paulo sobre a descoberta do ouro goiano (1725). A expedição do Anhanguera II levou apenas 20 dias para ir a pé e de montaria de São Paulo até o Rio Grande. A rapidez com que percorreu o caminho deixa claro que o trajeto era bem conhecido; sendo trilhado inicialmente pelos índios e depois por muitas entradas e pelos bandeirantes. Isso indica também que havia moradores por ali muito antes desta expedição. As novas regiões auríferas movimentaram a rota para se chegar a Goiás e Mato Grosso e permitiram a ocupação e o povoamento do Sertão do Rio Pardo. Num primeiro momento, de sesmarias e pousos (século XVIII) o Sertão do Rio Pardo foi povoado por paulistas e sua evolução demográfica foi pouco expressiva.
A economia da região estava voltada para a produção de gêneros de primeira necessidade para o próprio consumo e o abastecimento dos viajantes que percorriam o Caminho dos Goiases.
A configuração do Caminho de Goiás começou a se modificar a partir da década de 1790, acentuando-se sobretudo nas primeiras décadas do século XIX com a acentuada presença mineira no efetivo povoamento da região nordeste paulista (CHIACHIRI FILHO, 1986, p. 54). Este movimento de mineiros em direção ao Sertão do Rio Pardo situa-se no contexto de ampliação da fronteira da pecuária e agricultura de subsistência de Minas Gerais em direção a São Paulo. Além de condições naturais favoráveis como pastos abundantes, clima ameno e vegetação de cerrado (o que facilitaria a derrubada da mata), a localização próxima ao Caminho dos Goiazes permitiria o escoamento da produção (GARAVAZO, 2006, p. 27) contribuíram para a escolha da região de Franca como o destino escolhido.



Embora o comércio de São Paulo para as Gerais houvesse se estabelecido já ao final do século XVII, o "Caminho dos Guaiases" só se constitui como importante via de comércio após 1725 (época da descoberta do ouro em Goiás), transformando-se no Caminho de Goiás. Até então, somente à parte que compreendia até Mogi Mirim, por estar ligada ao comércio das Gerais, tinha importância comercial. A posse efetiva do Belo Sertão, o Sertão do Rio Pardo, deu-se com a presença dos entrantes mineiros. Com o declínio da mineração em Minas Gerais, a população começa a deslocar-se em direção ao oeste em busca não mais do ouro e dos diamantes, mas sim das boas terras de cultura e campos de criar. Atravessando o rio Grande, esses entrantes mineiros encontram no sertão do rio Pardo as terras devolutas de que precisavam e a grande estrada que ligava São Paulo a Vila Boa (o Caminho de Goiás) a qual facilitaria o escoamento de sua produção. Conquistando definitivamente o sertão, esses homens das Gerais fundarão os arraiais que servirão de sedes para instituições fundamentais do Brasil colonial e imperial.
Fontes: - Ribeirão Preto: da Figueira a Barra do Retiro de José Antônio Lages
Região de inúmeros rios, o Sertão do Rio Pardo constituía ótima via fluvial que serviu tanto para desbravar os sertões desconhecidos, (empurrando os índios Guaianases para fora desses "sertões"), bem como para abastecer as regiões de Minas Gerais (pelo Rio Pardo e Rio Grande principalmente), o que explica o número de sesmarias concedidas às margens, nascentes ou afluentes destes rios.
A afirmação do Caminho de Goiás como importante via de ligação correspondeu aos interesses da Coroa, buscando coibir os inúmeros caminhos e as picadas que serviam ao contrabando. Nesse sentido, a administração portuguesa incentivou a criação, ao longo de seu trajeto, de diversos núcleos populacionais, com moradores que plantassem roças e criassem pastagens, como pousos, para abastecimento aos viajantes e suas montarias (tropas).
Mesmo com o declínio da produção aurífera em Goiás e Mato Grosso, na segunda metade do século XVIII, o Sertão do Rio Pardo continuou a atrair populações, agora de mineiros, que se deslocam para seus campos e estabelecem criação de gado. O vínculo com as Minas Gerais permanece, o que se denota pela conservação dos traços culturais tipicamente mineiros, tais como a arquitetura e o modo de falar, e que de certa forma imprimiu sua marca a esta região.

O século XVIII é, portanto, chave para compreender a estrutura fundiária do Nordeste Paulista. Tornam-se necessários estudos que permitam a compreensão da complexa estrutura fundiária que, formada no século XVIII, é a base das grandes lavouras do século posterior. O Sertão do Rio Pardo, terra de posseiros, agregados e donatários de sesmarias durante o decorrer do XVIII, redefine-se no início do XIX com a especialização da produção em algumas áreas; açúcar, algodão, milho e futuramente o café, são as principais causas dessas redefinições que, por hora, podem ter agregado ou desagregado lavradores, posseiros e donatários, remodelando a estrutura fundiária conforme seus interesses.
Este texto visa demonstrar, em um região específica, como se constitui a propriedade, quem são seus moradores, habitantes e produtores, e de como esta produção voltada tanto para o comércio interno, como para a exportação, dialogou com estas ocupações territoriais, e neste ponto, o Caminho de Goiás é fundamental, pois é ele o mais importante elemento de povoação do Nordeste paulista no decorrer do século XVIII.
Nota: utilizamos algumas obras do grande pintor Calmon Barreto, expostas no Museu Calmon Barreto, em Araxá para ilustrar o texto por terem nos parecido pertinentes ao tema...